O gênero soulslike é um campo de provas brutal, não apenas para os jogadores, mas para os próprios desenvolvedores. Para se destacar, não basta replicar uma fórmula; é preciso inovar com identidade. Wuchang: Fallen Feathers, do estúdio Leenzee Games, chega com essa ambição. Após 35 horas em seu mundo, fica claro que ele é um dos mais fortes concorrentes a soulslike do ano, ostentando um sistema de combate sublime e uma direção de arte notável.

Contudo, essa excelência vem acompanhada de problemas técnicos e de design tão significativos que a experiência, por vezes, se torna uma batalha não apenas contra os inimigos, mas contra o próprio jogo. Wuchang é um verdadeiro diamante bruto, com um brilho ofuscante que luta para se sobressair em meio às suas imperfeições.

Créditos: Captura de Tela

Visualmente, Wuchang é uma obra de arte. A ambientação na China do final da Dinastia Ming é executada com uma curadoria artística primorosa, criando paisagens deslumbrantes que mesclam beleza natural e o grotesco da praga que assola o mundo. Florestas vibrantes, templos imponentes e esculturas colossais compõem um cenário que, em seus melhores momentos, é de tirar o fôlego.

Infelizmente, esse deleite visual é constantemente sabotado por um calcanhar de Aquiles técnico: a otimização. Rodando no PC, o jogo sofre com quedas de quadros e stuttering (engasgos) que comprometem a integridade da experiência, especialmente em um gênero que exige precisão milimétrica. Para um título com visuais que, embora belos, não são tecnologicamente revolucionários, a performance precária na Unreal Engine 5 é uma falha difícil de ignorar.

Créditos: Divulgação

É no combate que Wuchang se consagra. O sistema é fluido, responsivo e incrivelmente satisfatório. A base é familiar, mas a execução é brilhante, com a esquiva perfeita sendo o pilar central da mecânica. Executar um desvio no momento exato não apenas evita dano, mas gera “Poder Celeste”, um recurso essencial para usar magias ou as poderosas habilidades de arma. Essa dinâmica cria um balé de risco e recompensa que incentiva uma postura agressiva e habilidosa.

A progressão do personagem é gerenciada através de uma robusta árvore de habilidades. Utilizando “Mercúrio Vermelho” (as “almas” deste universo), é possível aprimorar atributos base como força e vitalidade, além de destravar novas técnicas para cada um dos cinco tipos de armas: espadas longas, lâminas duplas, machados, lanças e espadas de uma mão. Certos aprimoramentos cruciais, como o número de cargas do item de cura, exigem itens específicos encontrados pelo mundo, recompensando a exploração.

O jogo apresenta dois sistemas de personalização de armas distintos e complementares. A Temperagem permite imbuir a arma com efeitos elementais através de agulhas de osso ou pedra, podendo ser aprimorada para aumentar sua duração ou potência. Separadamente, as Bênçãos funcionam como encantamentos passivos que, ao equipar três do mesmo tipo, concedem um poderoso efeito de conjunto, similar a bônus de armadura em outros RPGs.

Para completar, o sistema de Loucura adiciona uma camada tática perigosa: a cada morte, sua loucura aumenta, elevando tanto o dano que você causa quanto o que você recebe. É um convite ao perigo, que só pode ser zerado ao derrotar um inimigo especial que surge periodicamente.

Créditos: Captura de Tela

A ambição de Wuchang em criar um mundo vasto e interligado, ao estilo de Dark Souls, acaba sendo um de seus maiores tropeços. O level design, embora conecte áreas de forma inteligente, peca pela falta de direcionamento claro. Os mapas são excessivamente grandes e labirínticos, o que frequentemente resulta em uma exploração frustrante e na sensação de estar perdido, sem saber qual dos múltiplos caminhos seguir.

A dificuldade é implacável e, para os fãs do gênero, isso é um elogio. Wuchang não faz concessões. Armadilhas estão por toda parte, e o caminho até um chefe pode ser um desafio maior do que o próprio confronto. Os chefes, em sua maioria, são bem desenhados, com alguns confrontos se destacando como verdadeiramente memoráveis, enquanto outros poucos acabam sendo esquecíveis. A variedade de inimigos é outro ponto forte, com um bestiário criativo que se renova a cada região.

Créditos: Captura de Tela

A narrativa de Wuchang, sobre uma pirata amnésica que contrai uma doença que a transforma em uma arma contra criaturas monstruosas, é apresentada de forma críptica e minimalista. Claramente, a história serve como um pano de fundo para justificar a ação, e não como o foco principal da experiência. Com quatro finais disponíveis, há um incentivo para a rejogabilidade, mas a busca por respostas sobre o passado da protagonista e a origem da praga é um caminho nebuloso.

Wuchang: Fallen Feathers é um jogo de extremos. De um lado, temos um dos melhores e mais bem executados sistemas de combate do gênero soulslike, apoiado por uma direção de arte fantástica. Do outro, uma otimização técnica que beira o inaceitável e um level design que confunde mais do que instiga.

A recomendação depende diretamente da tolerância do jogador. Se você consegue superar as barreiras técnicas e a exploração por vezes frustrante, encontrará uma experiência de combate primorosa e profundamente recompensadora. A presença do jogo no Game Pass torna essa decisão muito mais fácil, eliminando o risco financeiro. Wuchang é uma prova de que a Leenzee Games tem um talento imenso; só falta polir suas joias para que brilhem sem ressalvas.

Wuchang: Fallen Feathers foi lançado em 23/07 para PC, PS5 e Xbox Series S/X

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *