A mitologia do Antigo Egito, com seu panteão de deuses e seus mistérios sobre a vida após a morte, é um prato cheio para a criação de universos fantásticos, mas que ainda é surpreendentemente pouco explorada nos games. The Book of Aaru, um roguelite de ação do Amenti Studio, mergulha de cabeça nesse tema com uma ambição notável, entregando uma atmosfera mística e um mundo que convida à exploração.

No entanto, por trás de sua fascinante direção de arte e premissa criativa, o jogo esconde um calcanhar de Aquiles que impede sua jornada de alcançar o paraíso: um sistema de combate que tropeça nos próprios pés.

Créditos: Divulgação

Onde The Book of Aaru mais brilha é em sua construção de mundo. A história nos coloca na pele da exploradora Emily Sands que, ao adentrar o recém-descoberto Templo de Osíris, se vê amaldiçoada com uma aparência felina, similar à das antigas divindades. Presa no templo, ela precisa lutar para escapar. A sacada genial do estúdio foi amarrar a estrutura de um roguelite à mitologia: cada run é uma provação no purgatório de Osíris, onde morrer e tentar novamente faz parte do ciclo para se provar digno.

Os visuais e a trilha sonora cumprem um papel excelente em criar uma imersão no clima misterioso e por vezes opressor do submundo egípcio, sendo, sem dúvida, os pontos mais fortes da experiência.

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Infelizmente, a imersão é constantemente quebrada quando a ação começa. O combate de The Book of Aaru é impreciso e limitado. Embora existam diferentes tipos de armas, os movimentos se resumem a um ataque corpo a corpo e um à distância, ambos com pouca variedade. A mecânica de aparar (parry) tem um tempo de resposta tão inconsistente que se torna praticamente inútil na maioria das situações.

Some a isso as críticas da comunidade sobre hitboxes problemáticas e um sistema de mira desajeitado, e o resultado é um combate “travado” (clunky), que carece da fluidez e da precisão essenciais para um roguelike de ação. Você frequentemente sentirá que está lutando mais contra os controles do que contra os inimigos.

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Se a variedade de movimentos é escassa, o jogo tenta compensar na criação de builds. A verdadeira customização está na forma como o jogador combina as diferentes armas com os itens de status encontrados durante as partidas e com as melhorias permanentes fabricadas na base. É possível focar em um estilo de jogo mais ágil, em dano elemental ou em resistência, o que adiciona uma camada estratégica interessante e incentiva a rejogabilidade para testar novas combinações.

Contudo, o sistema de progressão também tem seus problemas. Ao morrer, você perde todos os materiais de criação que não foram depositados em pontos seguros, e mesmo ao depositá-los, há uma penalidade de 20%. Isso torna o processo de desbloquear todas as melhorias em uma tarefa repetitiva e que exige um “grind” excessivo, desequilibrando o ritmo do jogo.

The Book of Aaru é um jogo de potencial evidente, com uma ambientação fantástica e um sistema de builds que instiga a criatividade. É um título que você quer gostar. No entanto, suas falhas no núcleo do gameplay — o combate impreciso e as decisões de progressão punitivas — o impedem de se juntar aos grandes do gênero. É uma recomendação cautelosa, principalmente para jogadores apaixonados por mitologia egípcia e que tenham paciência para relevar um combate problemático em troca de um universo interessante.

A cópia de The Book of Aaru para esta análise foi cedida gentilmente pela assessoria do jogo através da plataforma Keymailer. #keymailer

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