Lost Soul Aside é a materialização de um sonho e de um pesadelo. O que começou há uma década como o projeto apaixonado de um único desenvolvedor, inspirado em Final Fantasy, e que viralizou com um protótipo impressionante, finalmente chega em nossas mãos.

A jornada de dez anos, no entanto, deixou cicatrizes profundas. O produto final é um Hack and Slash com um ótimo sistema de combate, mas que infelizmente está preso em um corpo atormentado por uma história esquecível, problemas técnicos graves e uma série de mecânicas mal concebidas que revelam as feridas de seu desenvolvimento conturbado.

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À primeira vista, Lost Soul Aside impressiona. A iluminação é o ponto alto, com raios de sol cortando florestas e efeitos de partículas preenchendo a tela durante o combate. No entanto, essa beleza é superficial, os visuais, embora agradáveis, não são de nova geração. O problema real está nos detalhes: as texturas em geral são fracas e as expressões faciais são, por vezes, vergonhosas, quebrando qualquer tentativa de imersão.

No PC, a performance é questionável, mesmo em uma 4070 Ti, a área inicial do jogo sofre com quedas bruscas de FPS e um consumo inexplicável de VRAM. A experiência foi marcada por bugs, como inimigos que se tornavam imunes a ataques, “pop-in” constante de objetos, sombras piscando e múltiplos crashes.

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O combate é, sem dúvida, a alma de Lost Soul Aside. Rápido, fluido e com um teto de habilidade altíssimo, o sistema lembra os melhores momentos de Devil May Cry. Com apenas quatro armas, o jogo consegue criar uma variedade imensa, onde cada uma possui um estilo de luta distinto, combos profundos e finalizações poderosas. O sistema de esquiva e defesa perfeita, que abre janelas para contra-ataques devastadores, é a cereja no bolo de um combate que, em seus melhores momentos, é simplesmente espetacular.

No entanto, ao redor desse núcleo brilhante, orbitam sistemas que parecem ter sido adicionados sem propósito. O jogo possui um sistema de elementos para armas e inimigos, mas na prática, usar fogo contra um inimigo de gelo não faz diferença alguma. Há uma barra de estamina que é gasta em esquivas, mas ela se recupera tão rápido e é tão irrelevante que, após 14 horas, ainda se pergunto por que ela existe. O sistema de criação de itens é raso, limitado a poções e acessórios simples. São ideias que parecem ter sido implementadas apenas para cumprir uma cartilha de RPG de ação, mas que não conversam com o design do jogo.

Essa falta de coesão se estende ao ritmo. Em muitos momentos, a campanha se arrasta com encontros repetitivos, transformando o combate, antes divertido, em algo maçante, como se o jogo tivesse sido artificialmente alongado para justificar seu preço.

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A trilha sonora de Lost Soul Aside é excelente, com uma clara e bem-vinda inspiração nas composições de Final Fantasy, transitando com competência entre momentos calmos e batalhas épicas. A dublagem em japonês também é de alta qualidade. Infelizmente, todo esse bom trabalho é sabotado por um design de som desastroso.

Em um jogo Hack and Slash, os efeitos sonoros são muitos importantes, sendo importante no conjunto da obra, porém em Lost Soul Aside os efeitos são fracos ou, em muitos casos, inexistentes. Golpes de espada não têm peso, magias explodem em silêncio e o impacto de um soco entre batalhas colossais não produz som algum. Some a isso problemas de mixagem, com vozes muito baixas em relação à música, e áudio que simplesmente desaparece em algumas cutscenes, e o resultado é um combate que, embora visualmente espetacular, parece oco.

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A história de Lost Soul Aside é seu ponto mais fraco. A trama de Kaser, um rebelde que se une a um dragão para salvar a alma de sua irmã de invasores dimensionais, é um amontoado de clichês previsíveis e sem emoção. O protagonista é tão carismático quanto uma porta, e os personagens secundários não recebem o desenvolvimento necessário para que o jogador se importe com eles.

Jogos de ação não precisam de uma narrativa shakespeariana, mas precisam de um mínimo de carisma para manter o engajamento, algo que ícones como Dant, Ryu Hayabusa e Bayonetta fazem com maestria. Aqui, a execução narrativa é tão problemática quanto o roteiro, com cortes abruptos entre gameplay e cutscenes que quebram a imersão e reforçam a sensação de um trabalho remendado e mal finalizado.

Lost Soul Aside é a história de um sonho de um desenvolvedor talentoso que, ao longo de uma década, se transformou em um pesadelo de produção. O brilho de seu sistema de combate é inegável e, para os fãs mais hardcore de ação, pode até valer a pena em uma boa promoção. No entanto, esse brilho está ofuscado por tantos problemas técnicos, sistemas subdesenvolvidos e uma história tão desinteressante que é impossível recomendá-lo pelo preço cheio.

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