Após o sucesso de Fobia: St. Dinfna Hotel, a Pulsatrix Studios retorna com A.I.L.A, um jogo de terror que explora um dos temas mais relevantes da atualidade: inteligência artificial.
Com direção criativa do youtuber Max MRm e publicação da Fireshine Games, o novo título do estúdio brasileiro traz uma premissa intrigante e produção audiovisual de altíssimo nível. Porém, após 9 horas de gameplay, fica claro que A.I.L.A é um jogo de contrastes, brilha intensamente em alguns aspectos enquanto decepciona em outros fundamentais para um survival horror.
Inteligência artificial como fonte de terror

A.I.L.A se passa em 2035, em um futuro próximo onde a tecnologia deu saltos significativos. Jogamos como Samuel, um beta tester de jogos que recebe uma proposta inusitada: testar o Projeto AILA, uma inteligência artificial revolucionária capaz de gerar experiências de terror personalizadas usando os medos mais profundos do usuário como base.
A premissa é extremamente atual e foi uma sacada inteligente da Pulsatrix, vivemos em uma era onde a linha entre conteúdo gerado por IA e criação humana está cada vez mais tênue. Questões sobre autoria, criatividade artificial e os limites éticos dessa tecnologia permeiam debates contemporâneos. A.I.L.A usa esse contexto de forma eficaz para construir sua narrativa.
A história funciona e mantém o interesse ao longo das 9 horas. Há diversos plot twists que redirecionam a trama de formas inesperadas, e o tema central sobre os perigos de uma IA com poder demais para explorar vulnerabilidades humanas é explorado de maneira satisfatória. Sem entrar em spoilers, o jogo questiona constantemente o que é real e o que é simulação, criando uma camada meta-narrativa interessante.
O sistema de moralidade implementado permite que suas escolhas influenciem o desenrolar dos eventos, culminando em 7 finais diferentes dependendo das decisões tomadas. Essa ramificação adiciona rejogabilidade significativa para quem deseja explorar todas as possibilidades narrativas.
Personagens

Um dos principais tropeços narrativos de A.I.L.A é o desenvolvimento de personagens, ou a falta dele. Como passamos a maior parte do jogo pulando entre diferentes experiências de terror geradas pela IA, cada uma com novos cenários e novos personagens, nunca temos tempo suficiente para criar conexão com Samuel.
Você está constantemente mudando de história, de contexto, de identidade. Mal começa a se familiarizar com um personagem quando a experiência termina e você é jogado em outra completamente diferente. Essa estrutura fragmentada, embora interessante conceitualmente, prejudica o engajamento emocional que grandes jogos de terror conseguem criar.
O ritmo narrativo, no entanto, funciona bem. As experiências contam brevemente o contexto do mundo em que estamos e logo permitem avançar para a narrativa principal. Há um equilíbrio entre exposição e ação que mantém o jogo em movimento sem se arrastar em diálogos desnecessários.
Apartamento

Entre cada experiência de terror, voltamos para o apartamento de Samuel para avançar na história principal. Essa estrutura de hub central é comum em jogos do gênero, mas aqui a execução deixa a desejar.
O problema é que você sempre faz praticamente a mesma coisa no apartamento. Explorar brevemente, interagir com alguns objetos, avançar um pouco a narrativa e partir para a próxima missão. Após as primeiras vezes, essas sessões se tornam repetitivas e você só quer pular direto para a próxima experiência de terror, onde o jogo realmente acontece.
Gameplay inspirada em Resident Evil, mas inconsistente

O game tem clara inspiração em Resident Evil, especialmente no RE7. Há inclusive uma experiência na fazenda que se assemelha bastante ao jogo da Capcom. O jogo incorpora mecânicas clássicas do gênero: combinar itens, resolver puzzles e sobreviver.
Como o jogo consiste em múltiplas experiências de terror, cada uma traz mecânicas distintas. Algumas focam mais em puzzles ambientais, enquanto outras enfatizam survival horror com combate. E é aqui que A.I.L.A mostra suas maiores disparidades de qualidade.
As experiências focadas em puzzles são, de longe, as melhores. Elas demonstram criatividade genuína e são satisfatórias de resolver. A primeira experiência com os manequins e a do navio são destaques absolutos, criando tensão através de enigmas inteligentes e atmosfera opressiva.
Já as experiências com foco em combate são genéricas e pouco inspiradas. Os puzzles continuam presentes, mas os inimigos e o próprio sistema de combate falham em impressionar ou assustar.
Combate problemático e impreciso

O combate é um dos pontos mais fracos. O sistema de combate corpo a corpo é travado e frustrante, há inimigos que é praticamente impossível acertar sem tomar dano. A gunplay também deixa muito a desejar, sendo imprecisa em certos momentos.
Tive múltiplos momentos onde um tiro claramente mirado na cabeça errava sem explicação. Situações onde dois disparos de shotgun à queima-roupa não matavam um inimigo comum. Essas inconsistências quebram a imersão e transformam o combate em algo mais irritante do que desafiador.
A dificuldade padrão (o jogo não tem seletor de dificuldade) é fácil demais. Não morri uma única vez durante toda a campanha e sempre tive excesso de recursos. Como estamos em constante mudança entre experiências, não há necessidade real de gerenciamento cuidadoso de itens, algo que é um pilar fundamental do survival horror.
Áudio excepcional que carrega a atmosfera

Se o combate e design de inimigos decepcionam, o áudio compensa com excelência. Este é, sem dúvidas, um dos pontos mais altos do jogo.
O design de som é fenomenal. O jogo sabe perfeitamente como passar tensão através de sons ambientes: rangidos de porta, assobios, gritos, passos. Cada elemento sonoro é meticulosamente projetado para criar desconforto e paranoia. Muitas vezes, o áudio assusta mais do que os inimigos visuais.
A dublagem brasileira está em altíssimo nível também. A Pulsatrix Studios trouxe dubladores de peso: Fábio Azevedo como Samuel, Luiza Caspary como AILA e Ricardo Juarez como o Capitão são destaques absolutos. As vozes encaixam perfeitamente com os personagens, adicionando camadas de personalidade e credibilidade às performances.
A trilha sonora original é igualmente impressionante, acompanhando momentos de tensão e até cenas mais leves com composições apropriadas. É música de alta qualidade que eleva a experiência audiovisual significativamente.
Gráficos

A.I.L.A é construído na Unreal Engine 5 e visualmente é lindíssimo. Dá para sentir o carinho e dedicação da equipe em cada cenário. A composição visual é excelente, com ambientação palpável que realmente coloca você no lugar do protagonista.
Os cenários são extremamente bem feitos, muitos deles contando histórias próprias através de detalhes ambientais. Os efeitos visuais são competentes e a iluminação cria a atmosfera densa necessária para um bom jogo de terror.
Rodei o jogo em uma RTX 4070 Ti e tive performance geralmente boa. Houve alguns stutterings inicialmente, mas após ativar o frame generation os problemas desapareceram. É o comportamento típico da Unreal Engine 5, exigente, mas deslumbrante quando configurada corretamente.
Durante minha gameplay encontrei alguns bugs, principalmente relacionados a inimigos. Ocasionalmente, após mortos, eles se moviam levemente ou ficavam girando no lugar. Nada grave ou que impedisse progressão, apenas pequenas imperfeições técnicas que podem ser corrigidas em patches.
O Veredito
A Pulsatrix Studios acertou no tema relevante, na produção audiovisual excepcional e nos gráficos deslumbrantes. As experiências focadas em puzzles são genuinamente criativas e a dublagem brasileira é de alto nível. Mas o jogo tropeça onde um survival horror não pode falhar: combate impreciso, inimigos genéricos e boss fights repetitivas.
Ainda assim, vale a experiência e ver um estúdio brasileiro criando jogos desse calibre é motivo de grande orgulho.

BOM
Pontos Positivos:
- Produção audiovisual excepcional
- Gráficos deslumbrantes
- Rejogabilidade
- Dublagem brasileira
- Atmosfera tensa
- Preço
Pontos Negativos:
- Combate impreciso e frustrante
- Boss fights repetitivas
- Dificuldade muito baixa com excesso de recursos
- Falta de desenvolvimento de personagens
Agradeço imensamente à equipe da Pulsatrix Studios e da Fireshine Games pela confiança em nosso trabalho e por disponibilizarem uma key para produção desta review.
Confira minha gameplay do inicio ao fim aqui:





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