O gênero boomer shooter teve um ressurgimento notável nos últimos anos, com desenvolvedoras indie resgatando a essência frenética dos FPS clássicos dos anos 90.

Captain Wayne: Vacation Desperation, desenvolvido pela Ciaran Games LLC e publicado pela Silver Lining Interactive, entra nessa onda sem pretensões de revolucionar o gênero, em vez disso, oferece uma experiência de 5 horas recheada de personalidade, armas criativas e um protagonista carismático.

Captura de Tela

Como todo bom boomer shooter, a história de Captain Wayne não é o foco e funciona mais como plano de fundo para justificar a carnificina. Jogamos como o Capitão Wayne, um pirata carismático com um braço prostético que serve tanto como arma quanto como ferramenta de navegação.

A personalidade do jogo e suas cutscenes lembram desenhos clássicos como Popeye ou Pica Pau, há um charme vintage deliberado na forma como as cenas são apresentadas, com animações exageradas e diálogos diretos ao ponto. Cada fase tem uma história diferente, mas sempre envolvendo os mesmos personagens recorrentes, uma estrutura episódica que funciona bem para o ritmo acelerado do gameplay.

Um detalhe importante: o jogo possui legendas em português brasileiro, o que é louvável para um título indie. Porém, as legendas não foram implementadas nas cutscenes, apenas durante a gameplay. É uma inconsistência estranha que pode confundir jogadores brasileiros que dependem das legendas para acompanhar a narrativa.

Captain Wayne é construído na GZDoom Engine, a mesma engine dos Doom clássicos, mas em vez da pixel art tradicional, o jogo adota uma estética de arte feita à mão que lembra muito Pizza Tower, traços bagunçados, rabiscados e cheios de energia.

Eu particularmente gosto desse estilo visual, ele trás muita personalidade nos sprites dos personagens, nas animações exageradas e nos cenários caricatos. É arte que não tenta parecer tecnicamente impressionante, mas sim expressiva e única. Dito isso, sei que essa estética pode desagradar jogadores que preferem visuais mais polidos ou pixel art tradicionais. É definitivamente uma escolha artística que divide opiniões.

Os menus, por outro lado, deixam a desejar. São excessivamente simplificados e bagunçados de forma que não contribui para a experiência. Falta organização visual e clareza nas opções, parece mais desleixo do que escolha estilística intencional.

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Captain Wayne não tenta reinventar a roda do boomer shooter, e isso é acertado. Devemos correr pelos mapas em alta velocidade, coletar armas, derrotar hordas de inimigos e resolver bloqueios simples sendo geralmente chaves que abrem portas trancadas. É a fórmula clássica, mas executada com fluidez.

O arsenal vai do botão 1 ao 9 e cada arma é criativa e distinta. Não são apenas variações genéricas, há identidade em cada uma. A shotgun, por exemplo, dispara pelo braço prostético do Capitão Wayne em vez de ser uma arma segurada, criando animações únicas. O lança-granadas atira bolas de canhão em vez de explosivos. São detalhes que adicionam personalidade e fazem você querer jogar com todas as opções.

O jogo é extremamente rápido, e o principal responsável por isso é a mecânica de pular e dar um chute que garante um grande impulso de velocidade. Dominar esse movimento é essencial para atravessar os mapas com eficiência e esquivar de ataques inimigos. É satisfatório quando você pega o ritmo e atravessa níveis em velocidade máxima.

Minha única crítica ao arsenal é que poderia haver mais variedade. As nove armas são todas excelentes, mas mais opções nunca fariam mal, especialmente considerando que outros boomer shooters modernos oferecem arsenais mais extensos.

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Aqui está o principal problema de Captain Wayne: a estrutura das fases piora conforme o jogo avança. As fases iniciais são excelentes e cumprem seu papel curtas, diretas, focadas em ação frenética. É o ideal de um boomer shooter: entrar, causar caos, sair.

Mas à medida que você progride, as fases começam a se alongar consideravelmente. Surgem mais puzzles para resolver, áreas enormes lotadas de inimigos e objetivos que exigem backtracking extenso. O ritmo acelerado que define o gênero se perde em mapas que parecem projetados mais para exploração do que para ação constante.

Isso é frustrante porque contradiz a própria identidade do jogo. Captain Wayne é melhor quando você está correndo a toda velocidade, pulando e atirando sem parar. Quando o jogo te força a desacelerar para procurar chaves em mapas labirínticos ou resolver puzzles ambientais, a experiência perde força. As fases finais chegam a ser chatas de passar, tirando completamente a rapidez característica do gênero.

A trilha sonora de Captain Wayne é excelente. Há músicas temáticas de piratas que estabelecem a identidade do jogo, mas a maior parte da soundtrack consiste em rock de alta qualidade que combina perfeitamente com a ação frenética. São composições energéticas que mantêm a adrenalina alta durante os tiroteios.

A dublagem é propositalmente mal feita para combinar com a estética bagunçada e cartunesca do jogo. Mas dentro dessa proposta, a qualidade é boa, as vozes combinam perfeitamente com os personagens e adicionam charme à apresentação geral. É dublagem que não tenta ser realista, mas sim expressiva e divertida.

Os efeitos sonoros são competentes, com feedback satisfatório para cada arma e impacto audível nos acertos. Nada revolucionário, mas funcional e apropriado para o estilo do jogo.

Captain Wayne: Vacation Desperation é um boomer shooter que sabe sua identidade e entrega personalidade de sobra. O protagonista carismático, as armas criativas, a trilha sonora de qualidade e a gameplay fluida criam uma experiência divertida que respeita os clássicos do gênero.

As fases iniciais mostram o jogo em seu melhor momento, rápido, direto e viciante. Mas o design das fases piora na segunda metade, com mapas alongados e puzzles que contradizem o ritmo frenético que o jogo estabelece.

Para fãs do gênero que valorizam personalidade acima de inovação, Captain Wayne vale a experiência, especialmente considerando o preço acessível e a performance que roda em qualquer PC.

75

BOM

Agradeço imensamente à equipe da Ciaran Games e da Silver Lining Interactive pela confiança em nosso trabalho e por disponibilizarem uma key para produção desta review.

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