Quando vi que Death Howl era um deckbuilder com elementos de soulslike, confesso que fiquei cético sobre como essa combinação funcionaria na prática, afinal são dois gêneros com filosofias aparentemente opostas. Mas a The Outer Zone, publicada pela 11 bit studios, conseguiu algo notável aqui: criar uma experiência que respeita ambos os gêneros enquanto forja uma identidade própria que funciona melhor do que eu jamais imaginaria, resultando em um dos jogos mais interessantes e desafiadores de 2025.
Uma jornada de Luto e Esperança

O jogo conta a história de Ro, uma caçadora de uma pequena tribo que vive em terras esquecidas envoltas por mitos ancestrais, e ela está completamente dominada pelo luto após a morte de seu filho. Guiada por vozes de outro mundo, ela transcende os limites da realidade física e parte para o reino dos espíritos com um objetivo desesperado e aparentemente impossível: trazer seu filho de volta à vida, algo que exige pedir ajuda aos quatro grandes espíritos que governam esse plano de existência e que não concedem seus favores facilmente.
A narrativa aborda temas pesados como luto, perda, aceitação e os limites do amor maternal, fazendo isso de forma madura e respeitosa que eleva a experiência acima de jogos que tratam morte apenas como mecânica de gameplay. O enredo é simultaneamente simples na sua premissa central e complexo nas camadas de significado que adiciona através de simbolismos e storytelling ambiental, porque embora passemos mais tempo batalhando do que conversando com personagens, os ambientes por onde passamos contam histórias ricas através de detalhes visuais, ruínas antigas, altares abandonados e rastros de civilizações que não existem mais. É narrativa que confia na inteligência do jogador para interpretar símbolos e conectar os pontos sem entregar tudo mastigado através de diálogos intermináveis.
Cartas se encontram com Souls

O sistema de combate é por turnos e utiliza mana como recurso central que controla literalmente tudo que você faz, desde movimentação básica pelo campo até o uso de cartas de ataque, defesa e buff, com cada carta consumindo uma quantidade específica de mana que precisa ser gerenciada com cuidado cirúrgico porque um erro de cálculo pode te deixar vulnerável no pior momento possível.
As cartas são extremamente variadas e incluem ataques corpo a corpo que exigem proximidade com o inimigo, ataques de longa distância que permitem manter distância segura, cartas explosivas que causam dano em área afetando múltiplos alvos, buffs temporários que aumentam seus atributos e debuffs que enfraquecem adversários, criando um arsenal tático profundo que recompensa experimentação e planejamento.
Após derrotar inimigos você coleta suas almas e é aqui que a influência soulslike se manifesta de forma mais direta e impactante, porque servem simultaneamente como experiência para subir de nível e desbloquear melhorias na árvore de habilidades e como moeda para fabricar novas cartas combinando almas com itens que você encontra ao derrotar inimigos ou explorar meticulosamente cada canto do mapa.
O sistema de crafting de cartas é profundo e permite personalização extrema do seu deck, mas vem com o risco característico do gênero: quando você morre em batalha perde todas as almas que estava carregando e precisa retornar ao local da morte para recuperá-las, e se morrer novamente no caminho elas desaparecem permanentemente.
As opções de construção de deck são vastas e você pode criar decks de até vinte cartas inicialmente, o que parece limitado à primeira vista mas na prática oferece espaço suficiente para múltiplas estratégias viáveis, desde builds focadas em dano explosivo de curto alcance até construções mais defensivas que priorizam controle de campo e desgaste gradual do adversário, passando por híbridos que combinam elementos de ambos dependendo da situação. A profundidade estratégica surge não apenas da escolha de cartas mas também de como você sequencia seus turnos, gerencia sua mana e se adapta quando o plano inicial falha e você precisa improvisar sob pressão.
Memorização de padrões como chave para vitória

A dificuldade do jogo é alta e segue fielmente a filosofia soulslike de que conhecimento é poder, porque você precisa decorar exatamente o que cada inimigo faz para ter chance real de vencer consistentemente, quantas casas ele consegue se mover por turno, quais golpes ele utiliza em cada situação, quais os padrões de ataques, como ele reage a diferentes tipos de provocação.
Isso eleva drasticamente a curva de aprendizado e transforma cada novo tipo de inimigo em um quebra-cabeça tático que exige observação cuidadosa, tentativa e erro, memorização de comportamentos e adaptação da estratégia conforme você aprende mais sobre as mecânicas específicas daquele adversário.
Gráficos

O game adota pixel art de alta qualidade que é simultaneamente detalhada e estilizada de forma a criar atmosfera única, com cada sprite demonstrando cuidado artístico e atenção a pequenos detalhes que poderiam facilmente passar despercebidos mas que adicionam camadas de profundidade visual à experiência.
Os ambientes são ricos em storytelling através de elementos visuais, ruínas antigas cobertas de vegetação que sugerem civilizações perdidas há séculos, altares decorados com símbolos místicos que insinuam rituais esquecidos, paisagens desoladas que transmitem a melancolia e isolamento da jornada de Ro através do reino dos espíritos.
A paleta de cores é deliberadamente sombria mas não monocromática, utilizando tons de cinza, verde musgo e roxo profundo para criar ambientação pesada que combina perfeitamente com os temas de morte e luto explorados pela narrativa, mas também introduzindo ocasionalmente explosões de cor vibrante em momentos específicos.
Design de áudio que amplifica a atmosfera

A qualidade sonora é algo que se nota imediatamente ao iniciar o jogo e permeia toda a experiência de forma marcante, com músicas de altíssima qualidade que estabelecem perfeitamente a atmosfera melancólica e mística que envolve o jogo.
Os personagens não possuem dublagem tradicional e em vez disso emitem sons vocais sem palavras compreensíveis, muito semelhante ao Celeste e jogos da Nintendo, e essa escolha funciona excepcionalmente bem aqui porque combina perfeitamente com a estética geral do jogo e permite que jogadores de qualquer idioma tenham experiência idêntica sem barreiras linguísticas, além de adicionar certa qualidade onírica e atemporal às interações que reforça a natureza sobrenatural do reino dos espíritos onde a história se desenrola.
Os efeitos sonoros são igualmente impressionantes com feedback tátil satisfatório para cada ação, o som de cartas sendo jogadas, o impacto de ataques, os gemidos de inimigos derrotados, tudo contribui para criar experiência audiovisual coesa que mantém você imerso no mundo mesmo durante sessões prolongadas de gameplay.
O Veredito
Death Howl é uma das fusões de gêneros mais bem-sucedidas que joguei em anos, pegando o melhor do deckbuilding tático profundo e combinando com a filosofia de design punitiva mas justa dos soulslikes para criar algo que funciona surpreendentemente bem e respeita ambas as tradições.
A história de luto e redenção é contada com maturidade, o sistema de combate por turnos baseado em cartas oferece profundidade estratégica absurda que recompensa planejamento cuidadoso e conhecimento dos inimigos, e a produção audiovisual com pixel art detalhada e trilha sonora memorável cria atmosfera pesada que gruda na memória.
É um jogo desafiador que não faz concessões e exige dedicação real para dominar seus sistemas complexos, mas para quem está disposto a investir tempo aprendendo as mecânicas e estudando padrões de inimigos a recompensa é uma das experiências mais satisfatórias e únicas de 2025.

Muito Bom
Pontos Positivos:
- Sistema de combate tático profundo
- Viciante
- Narrativa madura
- Pixel art detalhada
- Variedade de Inimigos
Pontos Negativos:
- Lutas ficam muito longas
Agradeço imensamente à equipe da The Outer Zone, MKTR Gaming e da 11 bit studios pela confiança em nosso trabalho e por disponibilizarem uma key para produção desta review.
Confira minha primeira hora de gameplay:





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