Quando Ghost of Tsushima foi lançado em 2020, rapidamente se estabeleceu como um dos melhores jogos do PlayStation 4 e redefiniu o que esperávamos de um jogo de samurai em mundo aberto, combinando combate satisfatório com uma ilha deslumbrante para explorar e uma história que respeitava profundamente a cultura japonesa.

Mais de quatro anos depois, a Sucker Punch retorna com uma sequência ambiciosa que se passa trezentos anos no futuro com uma nova protagonista e uma região completamente diferente para explorar, e após 60 horas investidas para platinar o jogo posso afirmar sem hesitação: esta é uma obra que supera seu antecessor em praticamente todos os aspectos e consolida a franquia como uma das melhores representações de samurais e cultura japonesa feudal nos videogames.

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A história nos coloca no controle de Atsu, uma mercenária que testemunhou o assassinato de sua família pelo Seis de Yotei, um grupo de guerreiros comandados pelo temível Lorde Saito, e após sobreviver ao massacre ela jura vingança criando uma faixa onde escreve os nomes de cada um deles.

O jogo começa de forma intensa com Atsu já perseguindo um dos alvos da lista, o Cobra, e após eliminá-lo com muito esforço ela risca seu nome da faixa e começa a ganhar o apelido de Onryo, um espírito vingativo que retorna da morte para buscar vingança.

A narrativa é excelente e funciona tanto como história de vingança pessoal quanto como exploração sobre até onde alguém está disposto a ir para acertar contas com o passado, apresentando plot twists genuinamente surpreendentes e cenas épicas. Embora vingança seja tema manjado em praticamente todas as mídias, a execução aqui se destaca pela maturidade com que aborda as consequências emocionais dessa busca obsessiva e pelas nuances que adiciona conforme a jornada progride e Atsu percebe que talvez haja mais em jogo do que apenas sua sede de retribuição.

A influência de Kill Bill, obra-prima de Quentin Tarantino, é inegável, desde a estrutura narrativa de ir atrás de uma lista de alvos até a estética violenta estilizada, mas o jogo estabelece identidade própria ao mergulhar profundamente na cultura japonesa feudal de uma forma que o filme nunca pretendeu fazer, resultando em uma experiência que presta homenagem ao cinema de Tarantino enquanto permanece firmemente enraizada na tradição do cinema samurai japonês.

Atsu é uma ótima protagonista com camadas que funciona tanto como uma força imparável de vingança quanto como pessoa vulnerável tentando processar traumas inimagináveis, e embora seja carrancuda e fechada na maior parte do tempo ainda demonstra ter coração ao ser constantemente colocada em situações onde precisa escolher entre fazer o que é certo ou seguir cegamente seu caminho de vingança sem se importar com danos colaterais.

Essas escolhas morais criam profundidade emocional e fazem você questionar se a vingança realmente vale o preço que está sendo pago.

Apesar do foco forte em Atsu, o jogo ainda consegue desenvolver personagens secundários memoráveis que não ficam apenas como suporte para a protagonista mas têm arcos próprios interessantes e complexos, criando um elenco coeso onde você genuinamente se importa com o que acontece com cada pessoa que Atsu encontra ao longo de sua jornada sangrenta pela região de Yotei.

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Visualmente este é um dos jogos mais bonitos da geração atual e demonstra o que o PlayStation 5 pode fazer quando desenvolvedores focam exclusivamente no hardware sem precisar considerar compatibilidade com gerações anteriores.

Embora graficamente não haja salto tecnológico revolucionário em termos de texturas ou iluminação quando comparado diretamente com o antecessor, é no design de mundo e na ambientação que a diferença se torna palpável, folhas caem das árvores de forma orgânica reagindo ao vento que atravessa os campos, flores balançam individualmente quando você passa correndo por pradarias extensas, a distância de visão foi expandida drasticamente permitindo que você veja montanhas distantes com detalhes impressionantes, e tudo acontece em escala muito maior do que era possível no hardware anterior.

A direção de arte continua sendo o maior trunfo visual com paleta de cores vibrantes mas naturais que capturam perfeitamente a beleza do Japão feudal em diferentes estações do ano, desde o vermelho intenso das folhas até o branco da neve cobrindo as montanhas. Cada região tem identidade visual distinta e você frequentemente para apenas para admirar a paisagem e tirar fotos usando o modo foto extremamente robusto que retorna com ainda mais opções de customização.

Joguei no PlayStation 5 Pro utilizando o modo Ray Tracing Pro com framerate desbloqueado e a experiência foi impecável tecnicamente, mantendo-se acima de 60fps na vasta maioria do tempo sem quedas perceptíveis mesmo durante batalhas caóticas com dezenas de inimigos na tela simultaneamente. Os carregamentos e viagens rápidas são praticamente instantâneos graças ao SSD do console, eliminando completamente o tempo morto entre exploração e tornando o mundo mais coeso e imersivo.

Ao longo das 60 horas necessárias para platinar encontrei poucos bugs e nenhum deles impactou significativamente a experiência, algo notável considerando a escala massiva do mundo aberto. Os bugs que encontrei foram principalmente inimigos ocasionalmente não morrendo ou demorando tempo anormal para morrer, mas nada que quebrasse missões ou exigisse reiniciar checkpoints.

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Uma das razões pelas quais me apaixonei pelo antecessor foi seu mundo aberto que é projetado para ser explorado sem objetivos genéricos copiados e colados dezenas de vezes apenas para inflar tempo de jogo, e a sequência não apenas mantém essa filosofia mas a expande com mais liberdade, melhorias importantes e adições que fazem exploração ser ainda mais gratificante.

Elementos clássicos retornam como as raposas, escaladas, acampamentos de inimigos, bambus e as icônicas fontes termais.

As adições novas são todas significativas e adicionam camadas ao gameplay sem sobrecarregar o jogador com sistemas desnecessários ou tarefas entediantes, flores especiais que temporariamente aumentam velocidade do cavalo incentivam você a sair do caminho principal e explorar áreas remotas, tocas de lobo espalham-se pelo mapa, mas a adição mais importante e divertida são definitivamente as caçadas de recompensas que aproveitam perfeitamente o passado de Atsu como mercenária.

Espalhados pela região existem criminosos procurados que você pode caçar por recompensas e muitos deles vêm com histórias interessantes que adicionam contexto ao mundo e às facções que controlam diferentes territórios, enquanto outros são mais diretos exigindo apenas que você chegue na localização marcada e derrote o alvo em combate. Essa variedade mantém as caçadas frescas ao longo das dezenas de horas que você passa explorando e evita que se tornem checklist mecânica sem alma como acontece em tantos jogos de mundo aberto.

As missões secundárias e os mitos continuam sendo excelentes e frequentemente rivalizam com missões principais em termos de produção e importância narrativa.

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O sistema de combate pega a base já fantástica do antecessor e aprimora praticamente todos os aspectos enquanto adiciona camadas de profundidade que transformam completamente a experiência, e a mudança mais significativa é a substituição do sistema de posturas por arsenal diversificado de armas brancas que inclui odachi (espada grande e pesada), yari (lança versátil), katana (espada clássica equilibrada), katanas duplas (rápidas mas com alcance curto) e kusarigama (foice com corrente que permite ataques a média distância), com cada arma sendo particularmente eficaz contra tipos específicos de inimigos mas todas sendo viáveis em qualquer situação dependendo do seu estilo de jogo preferido.

Essa diversidade resolve uma das minhas poucas críticas ao antecessor onde você ficava limitado essencialmente à mesma katana do início ao fim apenas alternando posturas, e aqui trocar entre armas no meio de combos cria possibilidades estratégicas muito maiores e permite que você adapte táticas instantaneamente conforme a composição de inimigos muda durante batalhas prolongadas. Além disso, por se passar trezentos anos no futuro quando armas de fogo já existiam no Japão, você tem acesso a rifle e pistola além do tradicional arco e flecha e outros recursos que já estavam presentes no jogo anterior, expandindo ainda mais o arsenal tático disponível.

Uma das adições mais satisfatórias é a mecânica de lançar armas e desarmar inimigos onde você pode deliberadamente receber ataques ou atacar o inimigo no momento certo fazendo o oponente soltar a arma que estava usando, momento em que você pode pegá-la e arremessá-la no inimigo mais próximo causando dano considerável e frequentemente matando instantaneamente soldados comuns, deixando o combate ainda mais estiloso.

Para obter cada nova arma você precisa passar por treinamentos específicos que servem tanto como tutorial mecânico quanto como desenvolvimento de personagem, como no caso das katanas duplas onde Atsu precisa treinar especificamente o braço esquerdo para dominar técnicas que exigem ambidestria perfeita, adicionando contexto narrativo que faz aquisição de novas habilidades parecer uma conquista genuína ao invés de apenas desbloquear item em um menu

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O sistema de progressão permite comprar habilidades novas usando pontos que você ganha ao completar santuários espalhados pelo mapa e também melhorar dano e propriedades especiais de suas armas na forja, criando sensação constante de evolução mesmo após dezenas de horas explorando a região de Yotei. Uma adição é a loba que acompanha Atsu em sua jornada e aparece para ajudar em diversos momentos durante combates, e ao completar tocas de lobo você pode se aproximar dela para aumentar afinidade e desbloquear habilidades especiais que tornam a companheira ainda mais útil em situações difíceis, criando um vínculo entre a Atsu e a loba.

Joguei na dificuldade normal e não tive muitos problemas ao longo da campanha, morrendo muito pouco e inclusive derrotando o chefe final na primeira tentativa, mas a dificuldade é equilibrada e teve momentos onde precisei suar para passar especialmente em algumas caçadas de recompensas contra oponentes que exigiam domínio completo das mecânicas de combate, então jogadores que buscam desafio maior certamente encontrarão nas dificuldades superiores.

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A trilha sonora composta por Toma Otawa é fenomenal e representa uma evolução significativa do que já era excelente no antecessor, utilizando instrumentos japoneses tradicionais da época feudal para criar um mundo mais autêntico que dá tom perfeito para cada momento da jornada de Atsu, desde composições melancólicas que acompanham momentos de reflexão e até músicas épicas que elevam batalhas climáticas contra os membros do Seis de Yotei a momentos cinematográficos inesquecíveis. Há inclusive músicas cantadas em japonês que arrepiam e ficam na memória muito depois dos créditos finais rolarem.

A dublagem brasileira é de altíssima qualidade com todas as vozes combinando perfeitamente com seus respectivos personagens, mas o grande destaque absoluto é Beatriz Meinberg interpretando Atsu de forma que parece ter sido moldada especificamente para esse papel.

Os efeitos sonoros mantêm padrão de excelência com feedback tátil satisfatório para cada ação desde o som de lâmina cortando carne até o impacto de flechas acertando alvos distantes, tudo contribuindo para criar experiência sensorial completa que engaja tanto visualmente quanto auditivamente.

Esta é uma sequência que faz tudo que grandes sequências devem fazer: pega a base sólida estabelecida pelo antecessor e aprimorar praticamente todos os aspectos enquanto adiciona elementos novos que expandem possibilidades sem sobrecarregar ou diluir o que funcionava perfeitamente.

A Sucker Punch criou um dos melhores jogo de samurai já feito, uma obra que respeita profundamente a cultura japonesa enquanto entrega gameplay satisfatório e história emocionalmente ressonante sobre vingança, redenção e o custo de ambas.

O mundo aberto é deslumbrante e recompensa exploração com conteúdo significativo. O combate evoluiu drasticamente com um arsenal diversificado e a produção audiovisual com gráficos impressionantes e trilha sonora memorável cria atmosfera que poucos jogos conseguem igualar.

Após 60 horas investidas para platinar posso dizer que cada minuto valeu a pena e esta é facilmente uma das melhores experiências exclusivas do PlayStation 5.

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