Quando assisti ao The Game Awards 2025 esperando ansiosamente pelo tradicional “one more thing” que sempre traz aquele jogo capaz de fazer a plateia gritar e pular de empolgação, como aconteceu com Intergalactic na TGA de 2024, me deparar com o anúncio de Highguard no final do evento foi genuinamente desanimador, porque parecia apenas mais um shooter genérico entrando em um mercado já saturado de jogos gratuitos tentando competir por atenção e dinheiro sem trazer nada particularmente inovador ou interessante.
Porém após investir algumas horas jogando a versão de lançamento, confesso que estou surpreso com o resultado porque o jogo conseguiu ser muito mais do que eu esperava e demonstra que a Wildlight Entertainment, estúdio formado por veteranos de Apex Legends e Titanfall, sabe exatamente o que está fazendo.
Mecânicas que misturam gêneros de forma inesperada

Ao entrar pela primeira vez você é imediatamente colocado em um tutorial obrigatório mas eficiente que ensina as mecânicas básicas do gameplay incluindo quebrar cristais espalhados pelo mapa para recursos, destruir paredes estratégicas para abrir novos caminhos e plantar bombas nos núcleos inimigos, estabelecendo rapidamente os pilares fundamentais do modo principal chamado Incursão que por enquanto é a única opção disponível no lançamento mas já demonstra profundidade suficiente para manter jogadores engajados por horas.
O jogo funciona como mistura aparentemente improvável de diversos títulos consagrados pegando elementos de cada um e fundindo tudo em experiência coesa que surpreendentemente funciona muito bem, o combate lembra muito Apex Legends com sua movimentação fluida e habilidades de personagens, o mapa tem estrutura que remete a Paladins com áreas abertas conectadas por corredores estratégicos, e o objetivo central de plantar bombas obviamente traz Counter-Strike para a tona, criando essa mistureba que no papel parece confusa mas na prática entrega gameplay dinâmico e divertido que consegue estabelecer identidade própria apesar das influências óbvias.
Incursão: modo principal com camadas estratégicas

O modo Incursão coloca duas equipes de três jogadores em uma área aberta onde cada lado possui uma base defendida contendo dois núcleos que precisam ser destruídos através de bombas plantadas, e destruir ambos os núcleos inimigos resulta em vitória imediata para sua equipe, mas obviamente nada é tão simples quanto apenas correr até a base adversária e explodir tudo porque existem múltiplas camadas de mecânicas defensivas e ofensivas que transformam cada partida em jogo de gato e rato estratégico onde posicionamento e timing são tão importantes quanto mira precisa.
Você pode reforçar paredes ao redor dos núcleos criando defesas adicionais que forçam o time inimigo a gastar tempo e recursos destruindo essas barreiras antes de acessar os alvos principais, e para entrar na base inimiga você primeiro precisa quebrar o escudo protetor que a envolve, algo que só pode ser feito obtendo a Invasora (uma espada que lembra muito a Excalibur) porque ao levar essa arma lendária até a base adversária você invoca um tanque gigante que destrói a barreira permitindo que sua equipe invada o território inimigo e plante as bombas nos núcleos expostos.
Antes da Invasora aparecer no mapa existe fase inicial de exploração onde você monta seu cavalo e percorre o ambiente coletando baús vermelhos e azuis que contêm armas com habilidades superiores, itens como selas que aumentam velocidade de movimento montado e principalmente armaduras que aumentam drasticamente suas chances de sobrevivência em combate, enquanto simultaneamente quebra cristais espalhados pelo cenário que funcionam como moeda para trocar com vendedores por melhorias adicionais que podem virar o jogo em momentos críticos.
Por mais que pareça sistema complexo demais quando você lê descrição rápida ou assiste vídeos sem contexto, na prática é modo de jogo extremamente simples de entender e pegar depois de algumas partidas porque o tutorial faz trabalho excelente explicando cada mecânica progressivamente, e a experiência de jogar é genuinamente divertida com aquela sensação satisfatória de coletar recursos gradualmente enquanto se prepara para invasão final que decide a partida.
Gunplay competente

A sensação de atirar é muito boa e dá para sentir claramente a experiência que os desenvolvedores veteranos de Apex Legends e Titanfall trouxeram para o projeto, porque cada arma tem peso satisfatório, recuo que parece natural e feedback tátil que recompensa acertos precisos de forma que poucos shooters conseguem alcançar. Todas as armas possuem animações excepcionalmente caprichadas como a sniper onde o personagem gira a arma ao puxar ou o revolver com reload estilizado, e esses detalhes aparentemente pequenos mas que demonstram cuidado genuíno da equipe em fazer cada aspecto do gameplay parecer polido e satisfatório são diferenciais importantes em mercado onde tantos shooters gratuitos parecem genéricos e descartáveis.
Elenco inicial diversificado e balanceado

No lançamento temos total de oito personagens disponíveis e cada um possui duas habilidades ativas além de um ultimate que carrega ao longo da partida através de dano causado, com todos sendo muito distintos uns dos outros tanto visualmente quanto mecanicamente e todos sendo genuinamente divertidos de usar dependendo do seu estilo de jogo preferido.
Kai por exemplo possui poderes de gelo permitindo criar paredes congeladas que bloqueiam avanços inimigos temporariamente ou podem ser usadas estrategicamente para alcançar posições elevadas inacessíveis de outra forma, enquanto Scarlet tem habilidade de ficar invisível por períodos curtos e pode transformar paredes em areia temporariamente criando passagens inesperadas que confundem adversários, com sua ultimate invocando adagas espectrais que causam dano massivo e resetam instantaneamente ao conseguir eliminação permitindo sequências de mortes encadeadas que lembram muito a Jett de Valorant.
O design dos personagens é bonito e chama atenção com cada um tendo animações únicas quando selecionados na tela de escolha antes das partidas começarem, algo que pode parecer detalhe supérfluo mas demonstra carinho e atenção que a Wildlight Entertainment teve com cada aspecto do projeto, recusando tomar atalhos fáceis mesmo sendo um jogo gratuito.
Unreal Engine 5 mostrando suas fraquezas

Visualmente o jogo é construído na Unreal Engine 5, a famosa e odiada engine que prometia revolucionar gráficos mas frequentemente entrega performance problemática, e infelizmente este é mais um caso onde a tecnologia falha em cumprir suas promessas porque embora graficamente seja bonito ficando bem acima da média da maioria dos shooters competitivos com iluminação impressionante, efeitos visuais caprichados e direção de arte sólida, o desempenho técnico no PC fica drasticamente abaixo do aceitável para um título que pretende competir no espaço de shooters competitivos onde framerate estável é algo essencial.
Mesmo colocando configurações no médio usando uma RTX 4070 Ti rodando em resolução 2.5K com DLSS ativado o jogo mal alcançava 80fps na maioria das situações e tinha quedas para 60fps durante combates caóticos com múltiplos efeitos visuais na tela simultaneamente, números completamente inaceitáveis para jogo competitivo onde cada frame faz diferença.
Isso significa que jogadores com hardware inferior provavelmente não conseguirão jogar com performance minimamente competitiva, problema gravíssimo para títulos gratuitos que depende de base massiva de jogadores para sustentar matchmaking saudável e comunidade ativa, porque ao alienar todos que não possuem PCs topo de linha você automaticamente reduz drasticamente o público potencial do jogo.
O Veredito (até agora)
Highguard me surpreendeu positivamente após expectativas iniciais extremamente baixas formadas pelo anúncio decepcionante na TGA, porque a Wildlight Entertainment demonstra entender profundamente o que faz shooters competitivos funcionarem através da experiência acumulada em Apex Legends e Titanfall, resultando em gameplay satisfatório que mistura elementos de vários gêneros de forma coesa e divertida.
O modo Incursão tem profundidade estratégica genuína, os personagens são distintos e o gunplay é excelente. Mas os problemas severos de performance causados pela Unreal Engine 5 podem matar o jogo antes mesmo dele ter chance de construir comunidade saudável, porque shooter competitivo que não roda bem em hardware médio está condenado ao fracasso independente da qualidade do gameplay subjacente.
Confira minha gameplay:
