Quando Hellraiser: Revival foi anunciado, confesso que estava mais curioso do que empolgado. Não sou grande fã dos filmes, tendo visto apenas o original e o reboot, mas a ideia de um jogo single player nesse universo macabro e grotesco foi algo completamente inesperado. Depois de alguns trailers, a dúvida se o jogo prestaria começou a ecoar na minha cabeça, principalmente pelo combate que parecia intragável nos vídeos.

Mas após mais de 13 horas para alcançar o 100% do jogo, posso afirmar que Hellraiser: Revival é muito mais do que eu esperava, e que por mais que algumas dúvidas se confirmassem, não chegaram nem perto de acabar com a minha diversão.

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História

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Hellraiser: Revival | Captura de Tela

A cutscene inicial já deixa claro estamos se metendo. Nosso protagonista Aidan Lynch está com sua namorada Sunny numa cena que envolve drogas, objetos sexuais espalhados pelo chão e agulhas. No meio do ato, Sunny decide usar uma caixa que havia encontrado, a Configuração Gênesis, o famoso Cubo de Lemarchand dos filmes. A configuração é ativada, os Cenobitas são convocados, uma cena de gore brutal acontece, e Sunny é levada para o Labirinto e Aidan precisa resgatá-la. Logo depois ele é capturado pela Igreja Escarlate, um culto bizarro que reverencia os Cenobitas como deuses e tem forte afinidade com prazer e masoquismo.

Por mais que a premissa pareça simples, a história consegue se aprofundar bastante durante a campanha. Há momentos onde entendemos mais sobre o passado de Aidan e Sunny e compreendemos melhor o caráter de ambos. Aidan não é o herói indo resgatar a donzela. Quanto mais ele avança pelo Labirinto, mais borrosa fica a razão real que o move. É amor? Culpa? Obsessão? Ou uma parte dele está tão curiosa quanto Sunny sobre o que existe do outro lado? A narrativa tem a coragem de não deixar você se sentir confortável com nenhuma resposta fácil.

Os vilões são um dos pontos mais fortes do jogo, com um elenco variado que inclui Marlowe, líder da Igreja Escarlate, e Charlotte, uma jovem que se voluntariou para experimentos dos Cenobitas e se transforma num stalker que persegue Aidan ao longo da campanha.

A narrativa parece ter sido tirada diretamente de um filme da franquia, e em diversos momentos me via pensando como seria bom um filme com essa mesma história e como ela se encaixa perfeitamente na lore estabelecida. Doug Bradley retorna como Pinhead após quase duas décadas, e é como se ele nunca tivesse saído.

Gameplay

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Hellraiser: Revival | Captura de Tela

Por mais das bizarrices únicas do jogo, quando o assunto é combate Hellraiser: Revival não reinventa a roda, e nem precisa. O jogo utiliza a base de survival horror claramente inspirada em Resident Evil, e por ser em primeira pessoa pensamos imediatamente no 7 e 8. Temos crafting onde precisamos achar itens para criar balas, kits médicos e ferramentas, um mercado para comprar e vender itens e armas, e um inventário limitado onde podemos reorganizar os itens para ganhar mais espaço.

Esse último ponto me incomodou pois não é possível girar os itens para posição vertical ou horizontal como em Resident Evil 4, o que limita um pouco as opções de organização. Ao longo da campanha encontramos bolsas que expandem o inventário, e cada uma delas traz aquela sensação de alívio genuíno porque o jogo nos dá itens constantemente e o inventário está sempre no limite.

Ao todo temos 5 armas de fogo, de pistolas até uma AK-47, cada uma com melhorias que podem ser compradas na loja ou encontradas durante a exploração. O gunplay funciona bem na maior parte do tempo, mas em momentos com mais inimigos ficou ligeiramente impreciso, com alguns tiros que claramente acertaram sem causar efeito e outros que pareciam mais efetivos sem motivo aparente.

O combate corpo a corpo foi onde mais senti problemas. Temos dois tipos de armas: lâminas para mutilar inimigos e armas de contusão como bastões e pedaços de madeira, mais úteis para quebrar a armadura de inimigos blindados. Todas se deterioram com o uso e podem ser consertadas com um item fabricável ou comprado. O que me incomodou foi que tudo parece travado, sem impacto real.

Ao acertar inimigos muitas vezes eles simplesmente não reagem, e acabamos sendo acertados mesmo atacando. Isso vale até para armas mais pesadas e foi o aspecto que mais desconectou o combate da brutalidade que o jogo tenta retratar visualmente.

O que eleva o gameplay muito acima do esperado é a Configuração Gênesis. Ao longo do jogo desbloqueamos diversos poderes que acrescentam enormemente à experiência. Telecinese que permite usar pregos, serras e facas do cenário para lançar nos inimigos, poder de fogo para utilizar chamas do ambiente, e o poder mais satisfatório de todos: o Hellchain. Com ele acumulamos a barra de poder da Configuração para convocar as correntes do inferno, despedaçando todos os inimigos ao redor num único momento que parece saído dos filmes.

O Labirinto

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Hellraiser: Revival | Captura de Tela

Em alguns momentos durante a história vamos para o Labirinto, parte icônica dos filmes onde vivem os Cenobitas. Nesses momentos não podemos utilizar nossas armas nem há inimigos para enfrentar. A tarefa é resolver enigmas e atravessar armadilhas para avançar. O Labirinto não é um nível, é um lugar que está ativamente jogando com você. Uma passagem que você acabou de percorrer não está mais lá quando você se vira. Uma porta abre num cômodo mas virar a esquina te coloca diante da mesma porta novamente.

As partes mais tensas do jogo acontecem aqui, quando somos perseguidos pelo Tagarela que lança suas correntes para nos guiar. O som de suas botas ecoando pelos corredores enquanto seus dentes chacoalham é puro horror atmosférico. Você sabe que ele está vindo. Você sabe mais ou menos onde ele está. E de alguma forma isso torna tudo pior.

No Labirinto também encontramos altares onde podemos melhorar a vida máxima e o nível de poder da Configuração Gênesis. Minha única ressalva com essas seções é que em alguns momentos a linearidade é óbvia demais, com segmentos que claramente existem para desacelerar o jogador entre combates ou para despejar exposição sobre os Cenobitas de forma um pouco mecânica.

Ambientação e Trilha Sonora

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Hellraiser: Revival | Captura de Tela

A ambientação de Hellraiser: Revival é extraordinária e é provavelmente seu maior trunfo. O jogo não tem vergonha do que é, não esconde nada quando tem capacidade técnica para mostrar cada detalhe com uma clareza perturbadora. Peles se esticando e rasgando. Sangue em quantidades que vão chocar até quem está preparado. Cultistas cobertos de todo o equipamento BDSM que você poderia imaginar.

A trilha sonora complementa tudo com um design de som maravilhoso. O barulho de carne sendo rasgada, ganchos prendendo a pele, ossos se quebrando, todos criam um desconforto visceral com cada interação.

Gráficos e Desempenho

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Hellraiser: Revival | Captura de Tela

Desenvolvido na Unreal Engine 5, Hellraiser: Revival conseguiu se diferenciar visualmente dos inúmeros jogos genéricos desenvolvidos na mesma engine. A iluminação, partículas e efeitos são todos muito bem trabalhados, com a fidelidade visual tornando o gore e o sadismo sexual em exibição ainda mais viscerais.

Joguei numa RTX 4070 Ti com gráficos todos no ultra e não tive absolutamente nenhum problema de FPS durante toda a campanha. Numa era onde otimização está se tornando uma raridade, o desempenho de Hellraiser: Revival é exemplar e merece reconhecimento.

O ponto negativo na parte técnica são as expressões faciais, que ficam visivelmente datadas principalmente em personagens secundários e NPCs. Num jogo com gráficos tão elaborados em outros aspectos, o contraste é perceptível. Também encontrei bugs ao longo da campanha, alguns menores e outros que quebraram momentos específicos, e tive alguns crashes que comprometeram um pouco a experiência.

Veredito

Hellraiser: Revival é uma grata surpresa. Por mais que seja nichado até mesmo dentro do gênero horror, a coragem dos desenvolvedores de lançar um jogo nesse nível, sem pedir desculpas por nada que mostra, merece reconhecimento.

A Boss Team Games entendeu o que torna Hellraiser especial: não são os sustos baratos ou o gore, mas a ideia de que prazer, dor, desejo e destruição são frequentemente ecos do mesmo som. O combate corpo a corpo travado e alguns momentos mais mecânicos do Labirinto são os únicos pontos que impedem o jogo de alcançar algo ainda maior.

Para qualquer fã de horror com estômago para o que o jogo oferece, é uma experiência que vai grudar na mente muito depois dos créditos.

hellraiser revival
85

MUITO BOM

Agradecemos à Saber Interactive pelo envio do jogo para a produção desta review.

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