Depois de três jogos do Homem-Aranha que praticamente definiram o gênero de jogos de super-heróis na última geração, a Insomniac Games muda completamente de tom com Marvel’s Wolverine. Aqui não tem balanços pela cidade, não tem adolescente tentando equilibrar vida escolar e heroísmo. Temos muito sangue e um mutante centenário carregando o peso de uma vida inteira de violência que ele mesmo não consegue lembrar direito.
Joguei no PS5 Pro e após 17 horas para conquistar a platina, saí impressionado com mais coisas do que esperava, mas também com algumas frustrações que precisam ser ditas.
História e Personagens

Marvel’s Wolverine não é um jogo dos X-Men, e a Insomniac deixa isso claro desde o início. Neste universo, os X-Men ainda não existem. Mutantes vivem escondidos, perseguidos por Bolivar Trask, um homem com recursos quase ilimitados e uma obsessão em erradicar qualquer pessoa com o gene mutante. Logan faz parte do Equipe X ao lado de Mística e Dentes de Sabre, numa operação clandestina que visa proteger mutantes das experiências de Trask.
A história começa a se mover de verdade quando o grupo encontra um grupo de crianças mutantes sendo capturadas por Omega Red e os Reapers para um laboratório secreto. O que acontece nas primeiras horas catalisa tudo que vem depois, e a Insomniac faz um trabalho muito competente em apresentar um Logan que não é o herói clássico que todos conhecem. Aqui ele é violento, carrega uma raiva que mal consegue controlar, mas ao mesmo tempo demonstra um cuidado pelas pessoas ao redor.
Liam McIntyre como Logan é incrível. Ele traz uma humanidade ao personagem que personagens como o Wolverine raramente recebem, sendo mais conhecido por gritar e soltar as garras do que por momentos de reflexão. A performance dele é provavelmente o melhor trabalho de voz do jogo e um dos melhores que vi num jogo de super-herói. Troy Baker como Nathaniel Essex também surpreende positivamente, entregando um vilão com camadas que vão se revelando gradualmente ao longo da campanha.
Jean Grey entra na história como segundo personagem principal, e entendo que isso vai incomodar muita gente. Mas a relação que se desenvolve entre ela e Logan ao longo das 15 horas é um dos aspectos mais bem escritos do jogo, com momentos quietos entre os dois que contrastam muito bem com toda a violência ao redor. A Insomniac claramente está construindo algo maior aqui, e o final deixa muito espaço para o que vem depois com as implicações de um universo X-Men se expandindo.
A grande fraqueza narrativa é a dependência num macguffin genérico que domina boa parte do segundo ato, com muito tempo sendo gasto num drama do tipo “não podemos deixar X cair em mãos erradas”. É a parte menos interessante da história, e contrasta mal com os momentos de personagem que são genuinamente excelentes.
Combate

O combate de Wolverine é completamente diferente de tudo que a Insomniac fez com o Homem-Aranha. Nas primeiras horas fiquei tentando criar combos elaborados como Peter Parker faria, e não funcionava. Quando parei de tentar ser criativo e simplesmente deixei Logan ser Logan, a experiência melhorou dramaticamente.
Wolverine é uma máquina de matar que pode absorver uma quantidade absurda de dano enquanto ataca. O sistema de raiva é o centro de tudo: conforme você ataca, o medidor de raiva sobe por três níveis, cada um intensificando os ataques, mudando as animações e desbloqueando finalizadores cada vez mais brutais. No nível máximo de raiva, Logan literalmente parece um animal, com visão cinza e apenas os inimigos ficando em vermelho, pulando de inimigo em inimigo e finalizando cada um deles.
Quatro técnicas especiais podem ser equipadas simultaneamente, tendo até 6 opções que podem ser adquiridas na árvore de habilidade. São habilidades que complementam bem o núcleo do combate sem tornar o jogo excessivamente complicado de aprender.
O parry e a esquiva existem e funcionam bem, mas a filosofia do jogo claramente favorece absorver dano e continuar avançando em vez de um sistema defensivo. A regeneração de Logan está sempre trabalhando, e com saúde suficiente você pode simplesmente atravessar grupos de inimigos facilmente.
Isso é ao mesmo tempo a maior qualidade e o maior problema do combate: é satisfatório e brutalmente divertido, mas depois de algumas horas começa a mostrar os limites da variedade disponível. Pressionar o mesmo botão para atacar durante 15 horas, mesmo com variações, inevitavelmente cansa em certos momentos, e isso se deve por que fazemos o mesmo combo o jogo inteiro.
As adaptações de DNA permitem personalizar como as mecânicas funcionam, mudando como a raiva se comporta em cada nível, adicionando efeitos às esquivas ou melhorando a percepção sensorial de Logan para encontrar itens escondidos. Não é um sistema de build profundo, mas dá personalização suficiente para que diferentes jogadores possam adaptar Logan ao seu estilo preferido.
Exploração e Estrutura

Marvel’s Wolverine é um jogo completamente linear, e a Insomniac não tenta esconder isso. Você entra numa missão, tem objetivos para completar, coisas para matar, e o jogo te leva de cutscene em cutscene com uma direção cinematográfica impecável. Não há mundo aberto, não há mapa expandido para explorar. A estrutura lembra mais um jogo de ação dos anos 2000 do que as produções de mundo aberto que dominam o mercado atual.
Isso não é necessariamente ruim. A linearidade permite que a Insomniac controle o ritmo com precisão, e os set pieces que surgem ao longo da jornada são de uma qualidade cinematográfica que pouquíssimos estúdios conseguem alcançar.
A travessia usando as garras para escalar construções e se balançar em postes é funcional mas longe da elegância do Homem-Aranha. É representativa do personagem, mas claramente o ponto mais fraco da jogabilidade fora do combate.
Tive alguns bugs de posicionamento durante sequências de escalada que me forçaram a reiniciar em checkpoints, algo que um patch deve resolver mas que incomodou no momento.
As portas de pesadelo são salas de desafio que desbloqueiam fragmentos da memória perdida de Logan. A ideia é boa, mas a execução deixa a desejar: as salas em si têm pouca relação temática com as memórias que revelam, e os desafios raramente são interessantes o suficiente para justificar a interrupção do ritmo da campanha, e as memórias são apenas um documento narrado por Logan sobre algo que ele ja fez antigamente. Vale fazer apenas pela cutscene final após completar todas as portas, que da uma boa aprofundada na história.
Gráficos e Desempenho

Jogando no PS5 Pro, Marvel’s Wolverine é simplesmente deslumbrante. A Insomniac mais uma vez entrega um dos jogos mais bonitos dessa geração, com modelos de personagens extremamente detalhados, animações faciais que capturam nuances de performance impressionantes, e ambientes que vão de florestas nevadas do Canadá ao submundo neon de Madripoor com uma fidelidade visual consistentemente alta.
As animações de combate merecem destaque especial. Cada golpe de garra tem peso, impacto e brutalidade que você sente através do controle. Os finalizadores são cinematograficamente elaborados e nunca perdem o impacto mesmo depois de vê-los dezenas de vezes. O sangue e a violência estão presentes em quantidades que vão surpreender quem não estava esperando por um jogo tão adulto nesse sentido.
O desempenho no PS5 Pro foi excelente durante toda a minha jornada, com o jogo rodando de forma suave e responsiva mesmo nas cenas de combate mais intensas com múltiplos inimigos e efeitos especiais simultâneos. Os loadings são inexistentes, o que torna as portas de Pesadelo mais palatáveis do que seriam num hardware mais lento, lembrando o que a Insomniac fez com Ratchet and Clank: Rift Apart.
Veredito
Marvel’s Wolverine é um jogo muito bom que poderia ter sido excelente com mais variedade no combate e uma segunda metade narrativa mais corajosa. A Insomniac prova que sabe trabalhar com personagens moralmente complexos além do Homem-Aranha, e Liam McIntyre entrega uma performance que vai definir essa versão de Logan por muito tempo.
O combate é brutal e satisfatório mesmo com suas limitações de variedade, os set pieces são de qualidade cinematográfica excepcional, e o universo que está sendo construído aqui tem potencial enorme para o que vem depois.
Se você tem um PS5 e curte jogos de ação com peso e consequência, vale muito a pena.

MUITO BOM
Pontos Positivos:
- Combate brutal e satisfatório
- Gráficos e animações excepcionais
- Narrativa madura
- Liam McIntyre como Logan
Pontos Negativos:
- Combate se torna repetitivo ao longo da campanha
- Bugs ocasionais



