Soulslike é um dos meus gêneros favoritos. Depois de jogar Dark Souls 1, um dos meus jogos favoritos da vida, fiquei completamente fissurado pelo estilo, tendo jogado todos os lançamentos da FromSoftware desde então. Por mais que o gênero esteja saturado hoje em dia, alguns estúdios encontraram formas geniais de agregar coisas novas a ele, como Lies of P e The First Berserker Khazan, dois dos meus favoritos fora da FromSoftware.
Foi nesse contexto que Valor Mortis me conquistou desde o anúncio: um soulslike em primeira pessoa. A ideia me pegou completamente desprevenido, e joguei a alfa em 2025 completamente encantado com tudo que vi. Após mais de um ano desde aquela preview, o jogo chegou nas minhas mãos e devo dizer com tristeza que Valor Mortis definitivamente não foi o que eu estava esperando.
História

Como já era esperado de um soulslike, a história segue mais como segundo plano, e aqui ela funciona bem dentro dessa proposta. O jogo se passa numa versão alternativa do início do século XIX onde Napoleão Bonaparte venceu em Waterloo. Em 1820, cinco anos após a batalha, Napoleão reina e a propaganda imperial o retrata não apenas como o mais brilhante general de sua época mas também como alguém que ama seus soldados a ponto de eles voltarem da morte para continuar servindo. Há um segredo terrível por trás dessa vitória e desses soldados que o povo ainda não conhece.
Você joga como William Dowsett, um soldado britânico que acordou do nada sem suas memórias e se juntou à Legião Estrangeira da Guarda Imperial. Sua jornada o leva por paisagens devastadas pela guerra enquanto confronta esses soldados mortos-vivos e eventualmente enfrenta The Shrike, uma líder da resistência.
A história não é narrada como um soulslike típico, sendo menos obscura e mais direta, mas mantém o storytelling que a série da FromSoftware consagrou. As revelações finais funcionam bem especialmente dentro do contexto da história alternativa, e a reflexão sobre a brutalidade da guerra e suas consequências para os inocentes tem peso.
Tornar William amnésico foi uma decisão inteligente que facilita a entrada do jogador no cenário e nos seus momentos mais perturbadores, alguns com clara inspiração em jogos de horror.
Combate

No quesito gameplay é onde Valor Mortis tem seu maior atributo, e preciso ser enfático nisso. O combate é maravilhoso, gostoso de jogar e extremamente responsivo. Por ser em primeira pessoa, o jogo se diferencia muito dos outros títulos do gênero, mas mantém elementos fundamentais como parry, esquivas perfeitas e ataques finalizadores.
Por se tratar de um jogo na era napoleônica, ao invés de espadas medievais temos sabres, garruchas e espingardas, armas únicas da época que dão personalidade ao jogo. É possível usar a espada numa mão e armas de fogo ou magias na outra, funcionando de forma similar a Dishonored ou Skyrim mas com a satisfação prazerosa de acertar um parry e decapitar inimigos com finalizações. As armas de fogo adicionam uma dimensão de shooter ao combate, com munição tão escassa que cada disparo é uma decisão real tomada sob pressão.
Os inimigos têm pontos fracos específicos que exigem atenção ao alvo, tornando a precisão parte fundamental da estratégia. O que funciona com um tipo de inimigo raramente funciona com outro, forçando adaptação. A lanterna substitui a fogueira clássica e funciona como um ponto de descanso e upgrade de atributos, usando catalisadores coletados ao derrotar inimigos. É possível melhorar vida, stamina e atributos específicos como a janela de timing do parry ou a chance de inimigos droparem munição. Âmbares coletados na exploração se encaixam nesses slots e carregam propriedades passivas que personalizam o estilo de jogo.
Level Design com DNA de Metroidvania

Uma das maiores surpresas positivas de Valor Mortis é o level design, que pega mecânicas de Metroidvania. Em diversos momentos encontramos áreas bloqueadas que só podem ser acessadas com uma habilidade específica obtida mais adiante na campanha. Após conseguir essas habilidades, o fast travel pelas lanternas permite voltar aos locais bloqueados com facilidade, tornando a exploração do mapa completo muito divertida especialmente quando você já está mais forte e equipado.
O jogo esconde segredos e detalhes que exigem atenção para serem encontrados. Os atalhos são muito bem construídos, com aqueles momentos de alívio genuíno ao abrir uma porta e encontrar uma lanterna já ativada mesmo estando completamente perdido no mapa. É exatamente o tipo de design interconectado que torna o gênero especial.
Bosses e Inimigos

O gênero é principalmente conhecido por sua dificuldade alta e pelas boss fights épicas, e é exatamente aqui que Valor Mortis decepcionou mais. No quesito inimigos, o jogo sofre com repetição exacerbada. Os inimigos possuem poucos golpes e praticamente matamos os mesmos tipos do primeiro capítulo até o último. Muitos são os mesmos mas com mudanças levianais como a arma equipada ou a roupa, tornando o jogo monótono. Por mais que o combate seja ótimo, ele não consegue carregar a experiência inteira quando o que você enfrenta não muda.
Apenas dois bosses me agradaram durante toda a campanha. A maioria é muito parecida entre si, e entendo que a narrativa da doença que transforma os soldados justifique isso tematicamente, mas no quesito gameplay é uma desculpa fraca. Algo que me incomodou especialmente nos bosses maiores é a presença de uma barreira invisível que limita o personagem de chegar mais perto deles, dando uma sensação estranha durante os confrontos.
Quanto à dificuldade, Valor Mortis é disparado o soulslike mais fácil que já joguei. Em todos os bosses do jogo, quando não passava de primeira passava na segunda tentativa, sem chance de aprender as mecânicas de forma real. O boss que achei que seria desafiador por causa do dano alto e resistência elevada foi o único de todo o jogo com apenas uma barra de vida, o que foi frustrante.
Gráficos Impressionantes

Valor Mortis é um jogo lindo. Desenvolvido na Unreal Engine 5, impressiona pela beleza desde os primeiros minutos de jogo. Iluminação, texturas e expressões faciais são muito bem trabalhados, e considerando o orçamento limitado do projeto, é um dos soulslikes mais bonitos já feitos. O cuidado visual com a estética napoleônica dá identidade visual única ao jogo.
O problema é o desempenho. Tive problemas constantes no meu PC, mesmo com as configurações abaixo do recomendado pelo próprio jogo. O framerate em si roda acima de 150 FPS, mas o stuttering era constante e os crashes me fizeram questionar se conseguiria terminar o jogo por parecer injogável em certos momentos.
Trilha Sonora
O som geral de Valor Mortis é muito bem feito. Sons de disparos, espadas se chocando, efeitos de fogo e sangue são todos muito bons e cumprem seu papel com competência. A trilha sonora, no entanto, ficou a desejar. Há dois momentos específicos onde uma música épica toca e a diferença é imediata, mas no geral a trilha é morna demais para um jogo que tenta criar tensão e épico na mesma medida.
Bugs

Talvez o maior problema atualmente, junto com o desempenho, sejam os bugs. O mais marcante foi durante o boss final: na segunda fase, por algum motivo ele ficou completamente paralisado, imóvel mesmo com eu atacando e causando dano. O que deveria ter sido épico e memorável se tornou algo involuntariamente cômico. Derrotei ele com o bug, enfrentei novamente e voltou ao normal, mas a experiência já não era a mesma.
Também tive um bug onde morri queimado e fiquei renascendo e morrendo em chamas repetidamente, um bug onde meu ponto de spawn ficou no ar fazendo meu personagem cair e voltar em loop até morrer, e em outra boss fight precisei reiniciar o jogo duas vezes por ficar completamente preso no ambiente. São problemas sérios que perturbaram momentos que deveriam ser marcantes.
Veredito
Valor Mortis é um jogo de contrastes. O combate em primeira pessoa é uma das adições mais originais e satisfatórias que o gênero soulslike recebeu em anos, o level design com inspiração em Metroidvania é genuinamente excelente, e os gráficos impressionam para o orçamento disponível.
Mas os bugs graves, o desempenho instável com stuttering constante, a repetição exacerbada de inimigos, os bosses sem personalidade e a dificuldade baixa demais para o gênero formam um conjunto de problemas que pesam demais.
É um jogo que tinha tudo para ser uma das melhores surpresas do ano e acabou sendo uma experiência regular que, apesar de suas qualidades, não chegou perto do que achei que seria.

BOM
Pontos Positivos:
- Combate satisfatório
- Level design com mecânicas de Metroidvania
- Gráficos impressionantes
- Exploração recompensadora
Pontos Negativos:
- Bugs graves
- Stuttering e crashes no PC
- Repetição de inimigos
- Trilha sonora morna
- Os bosses deixaram a desejar
Agradecemos à One More Level e a Lyrical Games pelo envio do jogo para a produção desta review.


