Admito que Dispatch nunca esteve no meu radar. Vi todos os trailers, acompanhei os anúncios, mas nunca senti vontade de jogar. Parecia mais um jogo narrativo tentando surfar na onda dos super-heróis. Quanto eu estava enganado. Após 9 horas distribuídas ao longo de oito episódios, posso dizer com convicção: Dispatch é uma das maiores surpresas de 2025 e um dos melhores jogos do ano.

Desenvolvido e publicado pela AdHoc Studio com recursos próprios, quase falindo no processo, Dispatch segue o modelo de jogos narrativos da Telltale, onde você mais assiste que joga, mas com um sistema de escolhas que realmente importa e personagens carismáticos que vão ficar na sua memória.

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Jogamos como Robert Robertson, o famoso Mecha Man, um herói no estilo Homem de Ferro cuja armadura é passada de geração em geração em sua família. A história começa com Robert em busca do Mortalha, o vilão responsável pela morte de seu pai, o antigo Mecha Man. Porém, ao chegar no local, ele cai em uma armadilha repleta de vilões. Robert mal consegue escapar, mas sua armadura é completamente destruída no processo.

Sem poderes e sem a armadura, Robert fica indefeso. É quando Loira Luminar, uma super-heroína e chefe da SDN (uma organização que comanda e coordena super-heróis), o salva e faz uma proposta inusitada: trabalhar para ela comandando e reabilitando um grupo de vilões que precisam se tornar heróis. É basicamente Esquadrão Suicida encontra The Office.

O trabalho de Robert é gerenciar esse time disfuncional, enviá-los em missões e, principalmente, transformar esse bando bagunçado e briguento em uma família. E é nessa premissa aparentemente simples que Dispatch constrói uma das narrativas mais envolventes que joguei este ano.

A história tem reviravoltas genuinamente surpreendentes que mudam completamente a percepção do que está acontecendo. Há cenas marcantes, emocionantes, chocantes, que raramente vemos em jogos, especialmente em produções independentes com orçamento limitado.

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Se há algo que eleva Dispatch acima da maioria dos jogos narrativos de escolha, são seus personagens. Todos são excepcionalmente bem escritos e carismáticos de formas completamente distintas. Você rapidamente se apega a eles, mesmo aos que inicialmente parecem detestáveis.

O time de vilões-em-reabilitação é diverso e memorável. Temos o Golem, que lembra bastante o Groot e tem momentos genuinamente fofos. Golpe Baixo, um anão que, como o nome sugere, só ataca em lugares específicos e baixos. Chase, amigo de infância de Robert, um velhinho boca-suja mas que claramente se importa profundamente com o protagonista.

Há também as opções românticas: Loira Luminar, mais correta e romântica, e Invisiva, cabeça-dura mas que realmente se importa com Robert. O jogo força você a escolher entre elas em determinado ponto, e essa decisão tem peso. Para constar: Invisiva é a escolha correta e não aceito debates.

Cada personagem tem arcos de desenvolvimento satisfatórios. Ver vilões babacas gradualmente se tornarem heróis decentes, ou pelo menos tentarem, é gratificante de uma forma que poucos jogos conseguem executar. A escrita é afiada, os diálogos e piadas são naturais.

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Dispatch é um jogo de escolhas, e elas funcionam surpreendentemente bem. Há diversas opções de diálogo e ações que são muito distintas umas das outras. Quer ser um líder compreensivo? Pode. Prefere ser durão e babaca? Também é uma opção viável.

A cada capítulo, o jogo força decisões difíceis. Você precisa escolher quem mantém no time e quem sai, decidir com quem passar tempo livre, ou optar entre missões conflitantes. Essas escolhas têm consequências na narrativa e nos relacionamentos.

Entretanto, é importante contextualizar as limitações. Dispatch não é Detroit: Become Human ou Until Dawn com dezenas de finais radicalmente diferentes. As possibilidades são mais limitadas, mas ainda assim satisfatórias e bem implementadas. Considerando que o jogo foi financiado inteiramente pelos desenvolvedores, e que quase faliram no processo, o nível de ramificação narrativa é impressionante.

A AdHoc Studio optou por lançar os oito capítulos em formato episódico, dois por semana. Essa decisão, que poderia ter sido apenas estratégia de marketing, acabou sendo acertada. Joguei um capítulo por dia após o lançamento completo e acredito que esse espaçamento ajudou a digerir os eventos e aumentou minha conexão com os personagens.

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As mecânicas de gameplay giram em torno do papel de despachador. Você precisa enviar membros do seu time para missões, e cada missão tem atributos específicos requeridos. Uma operação de espionagem precisa de alguém inteligente, uma missão de resgate precisa de força bruta. Você analisa os atributos dos seus heróis e decide quem enviar.

Parece simples, mas funciona bem dentro da proposta. Os heróis ganham experiência, sobem de nível e adquirem novas habilidades. Quando você manda dois heróis juntos em várias missões, eles podem desenvolver sinergia, aumentando as chances de sucesso quando trabalharem em equipe novamente.

Há também mecânicas de hacking em momentos específicos da história, além de quick time events durante sequências de ação. Nada revolucionário, mas implementado de forma competente.

O problema é que essas mecânicas, por mais que cumpram seu papel, acabam ficando um pouco repetitivas ao longo das 9 horas. Dispatch é primariamente uma experiência narrativa, e a gameplay serve mais como estrutura para avançar a história do que como diversão mecânica por si só.

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A trilha sonora de Dispatch é excepcional. Cada música combina perfeitamente com o momento, desde faixas pop animadas em cenas de festa até composições melancólicas em momentos emocionais. Várias músicas já entraram direto na minha playlist pessoal. O direcionamento musical é um dos pontos altos da experiência.

O elenco de vozes é uma bagunça gloriosa. Há atores renomados de Hollywood como Aaron Paul e Jeffrey Wright dividindo espaço com YouTubers famosos como Moist Critical e Jacksepticeye. No papel, isso parece uma receita para desastre. Na prática, todas as vozes são incríveis e combinam perfeitamente com seus respectivos personagens. É impressionante como cada ator, famoso ou não, entregarem uma performance que parece feita sob medida para aquele personagem específico.

Os efeitos sonoros também merecem destaque, com design de áudio impecável que complementa a experiência visual sem nunca se sobrepor à narrativa.

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A animação de Dispatch foi criado pelo Igloo Studio, um estúdio de animação na Tailândia, e o resultado é impressionante. A estética em 3D utiliza sombreamento que remete a quadrinhos, criando uma identidade visual única e atraente.

As animações são fluidas e caprichadas. Os personagens têm movimentos naturais e expressões faciais realistas que transmitem emoções de forma eficaz. É um nível de qualidade superior ao de muitas séries de TV com orçamentos milionários, o que torna a conquista da AdHoc Studio ainda mais impressionante.

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Dispatch é uma prova de que orçamento não é tudo. A AdHoc Studio criou uma das melhores experiências narrativas de 2025 com recursos limitados, quase falindo no processo, mas mantendo uma visão criativa clara e personagens excepcionalmente bem escritos.

A história envolvente, cheia de reviravoltas genuínas, é conduzida por um elenco de personagens carismáticos que rapidamente conquistam o jogador. As escolhas têm peso real na narrativa, e embora não ofereça a ramificação extrema de alguns AAA do gênero, o que está presente é satisfatório e bem executado.

A produção audiovisual está acima do que se esperaria de um projeto independente. A trilha sonora é memorável, as vozes são perfeitas e a animação tem qualidade de série de alto orçamento.

As mecânicas de gameplay são funcionais mas acabam ficando repetitivas, e a experiência é claramente focada em narrativa acima de tudo. Mas para quem busca uma história bem contada com personagens inesquecíveis, essas limitações são facilmente perdoáveis.

Fico muito feliz de Dispatch estar fazendo o sucesso que está fazendo. É uma das maiores surpresas de 2025 e uma demonstração inspiradora de que estúdios pequenos com visão e dedicação podem criar experiências que rivalizam, e às vezes superam, produções muito mais caras mas com pouca paixão.

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Você pode acompanhar minha gameplay por aqui:

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Respostas

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