Misturar survival horror com metroidvania pode parecer uma ideia estranha à primeira vista. Enquanto um gênero aposta na escassez de recursos, no combate punitivo e na sensação constante de vulnerabilidade, o outro incentiva a exploração, o retorno a áreas anteriores e a descoberta de novos caminhos. Mas e se fosse possível reunir essas duas propostas em um único jogo? É exatamente isso que Silver Pines tenta fazer, e o resultado é muito melhor do que eu poderia imaginar.

Desenvolvido pela Wych Elm, um pequeno estúdio independente formado por apenas cinco desenvolvedores, e publicado pela Team17, Silver Pines é uma aventura de terror em 2D que carrega fortes inspirações em clássicos como Resident Evil e Silent Hill. Entretanto, o jogo não se limita a reproduzir elementos dessas obras. Sua direção artística em rotoscopia, história repleta de mistérios e exploração metroidvania conseguem dar identidade própria a uma experiência que, mesmo com algumas limitações, acerta em praticamente tudo aquilo que se propõe a fazer.

Uma investigação que se transforma em pesadelo

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Silver Pines | Captura de Tela

Em Silver Pines, acompanhamos Red Walker, um investigador particular contratado para encontrar Eddie Velvet, um músico que desapareceu misteriosamente em uma pequena cidade americana. O trabalho parecia relativamente simples, mas, ao chegar ao local, Walker descobre que grande parte dos moradores abandonou a região devido à aproximação de uma tempestade que promete ser uma das maiores já registradas.

Os poucos habitantes que permaneceram não parecem particularmente interessados em ajudar, e não demora para percebermos que existe algo muito mais perturbador acontecendo naquela cidade. Criaturas grotescas começam a aparecer, acontecimentos inexplicáveis se tornam cada vez mais frequentes e o que deveria ser apenas uma investigação de desaparecimento acaba se transformando em uma verdadeira luta pela sobrevivência.

A história é facilmente um dos maiores acertos de Silver Pines, principalmente pela maneira como consegue despertar nossa curiosidade sem entregar todas as respostas logo de início. Imagine o mistério e a investigação de Alan Wake misturados com o terror psicológico de Silent Hill; o resultado seria algo muito próximo da experiência apresentada aqui. A narrativa brinca constantemente com nossa percepção sobre o que é real e o que pode estar acontecendo apenas na mente do protagonista, apresentando personagens excêntricos, situações surreais e acontecimentos que parecem não possuir qualquer explicação lógica. Em vários momentos, somos levados a questionar não apenas o que está acontecendo na cidade, mas também a própria sanidade do nosso personagem, algo que torna a investigação ainda mais interessante.

Boa parte da história é desenvolvida por meio de conversas, documentos e informações encontradas durante a exploração, incentivando o jogador a prestar atenção nos detalhes e tentar conectar os acontecimentos. E isso funciona muito bem, porque quanto mais descobrimos sobre Eddie Velvet, mais perguntas começam a surgir. Personagens que inicialmente parecem pouco importantes ganham relevância, informações aparentemente desconexas começam a fazer sentido e a própria cidade passa a ter um papel muito maior na narrativa.

Outro ponto que merece destaque é a maneira como Silver Pines utiliza o mistério para manter o jogador envolvido mesmo nos momentos mais tranquilos. Não precisamos estar constantemente enfrentando criaturas ou sendo perseguidos para sentir que existe algo errado. Uma simples conversa com um morador pode deixar mais dúvidas do que respostas, enquanto determinadas situações parecem saídas diretamente de um pesadelo.

A narrativa consegue equilibrar muito bem investigação e terror psicológico, e a existência de diferentes finais complementa essa proposta, oferecendo novas possibilidades de interpretação para os acontecimentos da campanha.

Survival horror com S maiúsculo

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Silver Pines | Captura de Tela

Apesar de sua apresentação em 2D, Silver Pines possui muito mais em comum com os primeiros Resident Evil do que com metroidvanias tradicionais como Hollow Knight ou Castlevania. Aqui não temos movimentações acrobáticas, dezenas de habilidades especiais ou combates extremamente rápidos. O foco está na sobrevivência, na exploração e, principalmente, na administração dos poucos recursos disponíveis. Munição é limitada, itens de cura precisam ser utilizados com cuidado, armas corpo a corpo possuem durabilidade e até mesmo o espaço disponível no inventário se torna um problema. São mecânicas bastante conhecidas pelos fãs do gênero, mas que funcionam surpreendentemente bem quando transportadas para a perspectiva lateral utilizada pelo jogo.

O inventário utiliza um sistema de blocos semelhante ao de Resident Evil 4, no qual cada objeto ocupa uma quantidade diferente de espaço. Isso significa que não podemos simplesmente carregar tudo que encontramos durante a exploração, sendo necessário escolher cuidadosamente quais equipamentos serão mais úteis naquele momento. Uma arma maior pode oferecer vantagens durante os confrontos, mas também ocupar o espaço necessário para carregar itens de cura, munição ou objetos importantes para a investigação. E como estamos constantemente encontrando novos recursos e ferramentas, essa organização se torna parte fundamental da experiência.

Outro elemento interessante é o sistema de salvamento, que funciona por meio de telefones públicos espalhados pela cidade. Diferentemente da maioria dos jogos modernos, que registram nosso progresso automaticamente, Silver Pines exige que gastemos uma moeda para realizar uma ligação e salvar a partida. O problema é que essas moedas também podem ser utilizadas para comprar suprimentos em máquinas de venda, criando um dilema constante entre garantir a sobrevivência imediata ou guardar dinheiro para não perder o progresso. É uma mecânica que lembra bastante as fitas de tinta dos Resident Evil clássicos, mas com a diferença de que utilizamos uma moeda que também possui outras funções dentro do jogo.

Essa combinação de sistemas faz com que cada decisão tenha um peso maior. Gastar munição para eliminar uma criatura pode facilitar nosso caminho naquele momento, mas também significa ter menos recursos para um confronto futuro. Utilizar um item de cura antes de realmente precisar pode representar um desperdício, enquanto explorar uma região desconhecida sem salvar anteriormente sempre envolve o risco de perder parte do progresso.

Silver Pines entende muito bem que o survival horror não depende exclusivamente de inimigos assustadores, mas também da sensação de que estamos constantemente a uma decisão errada de colocar tudo a perder.

Combate punitivo que valoriza cada recurso

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Silver Pines | Captura de Tela

O combate de Silver Pines também segue a filosofia dos survival horrors clássicos, apresentando confrontos mais lentos e punitivos do que estamos acostumados a encontrar em jogos de ação. Red Walker não é um soldado treinado ou alguém preparado para enfrentar criaturas sobrenaturais, mas apenas um investigador particular tentando sobreviver a uma situação completamente fora de seu controle. Isso fica evidente desde os primeiros encontros, principalmente pela movimentação mais limitada do protagonista, pela estamina consumida durante os ataques e pela necessidade de conhecer o comportamento dos inimigos antes de simplesmente partir para cima deles.

As armas corpo a corpo exigem bastante atenção ao posicionamento e à distância, já que cada ataque consome estamina e deixa pequenas aberturas para que os inimigos consigam contra-atacar. Além disso, essas armas se desgastam conforme são utilizadas e precisam ser reparadas com materiais encontrados durante a exploração. Já as armas de fogo oferecem uma alternativa mais segura para determinadas situações, mas a munição escassa impede que sejam utilizadas indiscriminadamente.

Até mesmo o recarregamento exige planejamento, já que cada bala é colocada individualmente na maioria das armas, levando um bom tempo para recarregar.

O interessante é que Silver Pines consegue transformar essa aparente limitação em uma das principais qualidades do combate. Mesmo depois de conseguir novos equipamentos e acumular alguns suprimentos, os confrontos continuam exigindo cautela, principalmente porque nunca sabemos exatamente quando precisaremos daqueles recursos novamente. Muitas vezes, evitar uma criatura pode ser uma alternativa mais inteligente do que enfrentá-la, enquanto em outras situações precisamos decidir rapidamente se vale a pena gastar munição ou arriscar um confronto corpo a corpo.

Entretanto, nem tudo funciona perfeitamente, e a pouca variedade de inimigos é um dos principais problemas de Silver Pines. Embora as criaturas apresentem designs interessantes, não demora para começarmos a encontrar os mesmos tipos de inimigo repetidamente durante a exploração. Conforme aprendemos seus padrões de ataque e descobrimos as melhores maneiras de enfrentá-las, parte do fator surpresa acaba desaparecendo.

Isso não significa que o combate deixa de ser desafiador, principalmente porque a escassez de recursos continua sendo importante, mas uma quantidade maior de inimigos diferentes certamente tornaria os encontros mais imprevisíveis e ajudaria a manter a tensão durante toda a campanha.

Uma cidade construída como um metroidvania

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Silver Pines | Captura de Tela

Se o combate e o gerenciamento de recursos são claramente inspirados em Resident Evil, a exploração é onde Silver Pines incorpora de maneira mais evidente sua identidade metroidvania. A cidade funciona como um grande mapa interconectado, com ruas, estabelecimentos abandonados, corredores e passagens subterrâneas que podem ser explorados conforme encontramos ferramentas e descobrimos maneiras de acessar novas regiões. Imagine a exploração da delegacia de Resident Evil 2, com suas portas trancadas, atalhos e salas que precisam ser revisitadas, mas aplicada à escala de uma pequena cidade americana. Essa é uma boa maneira de explicar como funciona a progressão de Silver Pines.

Durante a investigação, encontramos diversos caminhos bloqueados que inicialmente não podem ser atravessados, seja pela falta de uma chave, de uma ferramenta específica ou de alguma informação necessária para avançar. Conforme exploramos outras regiões e encontramos novos equipamentos, podemos retornar a esses locais para finalmente descobrir o que estava escondido. É uma estrutura bastante familiar para quem gosta de metroidvanias, mas que ganha uma dinâmica diferente graças às mecânicas de sobrevivência. Como não temos recursos infinitos, cada nova região representa tanto uma oportunidade de encontrar suprimentos quanto o risco de enfrentar criaturas para as quais talvez não estejamos preparados.

E o mais interessante é que essa exploração consegue ser recompensadora mesmo quando não estamos avançando diretamente na história. Encontrar um caminho alternativo, descobrir uma passagem que conecta duas regiões ou finalmente abrir uma porta que estava trancada desde o começo da campanha proporciona aquela satisfação característica dos melhores metroidvanias. O mapa vai se tornando cada vez mais familiar conforme avançamos, e começamos a reconhecer atalhos e planejar caminhos mais eficientes para alcançar determinados objetivos. Isso faz com que o backtracking não pareça apenas uma maneira artificial de prolongar a duração do jogo, mas uma parte importante de sua estrutura.

Enigmas que poderiam ir além

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Silver Pines | Captura de Tela

Como não poderia faltar em um jogo tão inspirado nos survival horrors clássicos, Silver Pines também apresenta diversos enigmas espalhados pela cidade. Durante a investigação, precisamos encontrar pistas, interpretar informações e utilizar objetos específicos para desbloquear passagens e avançar pela história. Alguns desafios exigem consultar documentos e prestar atenção aos detalhes dos cenários, enquanto outros dependem de encontrar determinados itens e descobrir onde utilizá-los.

O problema é que, apesar de funcionarem bem dentro da estrutura do jogo, os enigmas poderiam ser consideravelmente mais elaborados. Grande parte deles não exige muito raciocínio, principalmente quando comparados aos quebra-cabeças mais memoráveis de franquias como Resident Evil e Silent Hill. Em diversos momentos, a maior dificuldade está em encontrar o objeto necessário ou descobrir onde utilizá-lo, e não propriamente em solucionar algum desafio mais complexo. Isso acaba deixando a sensação de que Silver Pines poderia ter aproveitado melhor sua temática de investigação para apresentar puzzles que realmente exigissem mais atenção e criatividade do jogador.

Não considero que os enigmas sejam ruins, longe disso. Eles cumprem seu papel de incentivar a exploração e oferecem variedade à progressão, mas acabam sendo um dos aspectos menos impressionantes da experiência. Considerando a qualidade da narrativa e o cuidado dedicado à construção da cidade, desafios mais complexos poderiam acrescentar ainda mais profundidade.

Trilha sonora e Design de som

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Silver Pines | Captura de Tela

Uma das maiores qualidades de Silver Pines está na maneira como o jogo constrói sua atmosfera. A cidade americana parece ter sido abandonada às pressas, com ruas praticamente desertas, estabelecimentos fechados, edifícios deteriorados e uma tempestade que ameaça transformar tudo em um verdadeiro pesadelo. Os poucos moradores que encontramos durante a investigação ajudam a reforçar essa identidade, com personagens peculiares que parecem esconder muito mais do que revelam.

Mas Silver Pines não depende de sustos repentinos para provocar medo. Grande parte do desconforto vem da própria ambientação, dos ruídos distantes e da expectativa de encontrar alguma coisa desconhecida. Em determinados momentos, caminhar por uma rua completamente vazia consegue ser tão perturbador quanto enfrentar uma criatura, justamente porque o jogo utiliza muito bem o silêncio e a incerteza. É uma abordagem que lembra bastante Silent Hill, onde o terror não surge necessariamente daquilo que estamos vendo, mas da sensação constante de que alguma coisa pode aparecer a qualquer momento.

A trilha sonora complementa essa experiência de maneira excelente, misturando composições melancólicas e atmosféricas que remetem diretamente às produções de suspense e terror dos anos 1990. As influências do jazz e do rock ajudam a criar uma identidade musical bastante particular, alternando momentos de aparente tranquilidade com melodias que reforçam o desconforto da investigação.

O trabalho de áudio também merece destaque, principalmente pelos sons das criaturas e pelos ruídos ambientais que acompanham nossa exploração. Muitas vezes, conseguimos perceber a presença de uma ameaça antes mesmo de encontrá-la, o que aumenta consideravelmente a tensão.

Gráficos

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Silver Pines | Captura de Tela

Visualmente, Silver Pines é simplesmente maravilhoso e consegue se destacar logo nos primeiros minutos graças à sua direção artística. Em vez de apostar em gráficos ultrarrealistas, a Wych Elm utiliza a técnica de rotoscopia, um método de animação no qual movimentos reais servem como referência para criar personagens animados. Essa técnica existe há mais de um século e também foi utilizada em videogames clássicos como Prince of Persia, Another World e Flashback, mas aqui ela ganha uma identidade própria ao ser combinada com cenários sombrios, iluminação contrastante e uma estética que parece ter saído diretamente de uma graphic novel.

Os movimentos dos personagens possuem uma fluidez bastante peculiar, enquanto as criaturas apresentam animações que parecem propositalmente estranhas e desconfortáveis, algo que combina perfeitamente com a proposta de terror. Os cenários também são extremamente bem trabalhados, com ruas iluminadas por postes, ambientes escuros e efeitos climáticos que ajudam a transmitir a sensação de isolamento.

O que mais impressiona é como todos esses elementos trabalham em conjunto para criar uma identidade visual tão marcante. A iluminação, as sombras, os movimentos dos personagens e os próprios cenários parecem fazer parte de uma mesma visão artística, algo que nem sempre encontramos em produções com orçamentos muito maiores. É mais um exemplo de como uma direção de arte bem definida pode ser muito mais importante do que simplesmente tentar alcançar o maior nível possível de realismo gráfico. E pensar que tudo isso foi desenvolvido por uma equipe tão pequena torna o resultado ainda mais impressionante.

Veredito

Silver Pines combina o melhor dos survival horrors clássicos com a exploração metroidvania, entregando uma aventura marcante, com uma história intrigante, atmosfera perturbadora e direção artística belíssima. Mesmo com enigmas pouco elaborados e variedade limitada de inimigos, a Wych Elm demonstra que uma equipe pequena pode criar uma das experiências mais interessantes do gênero.

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Incrível

Agradecemos à Wych Elm e a Team17 pelo envio do jogo para a produção desta review.

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