Wardrum chega ao mercado com uma premissa que soa quase como uma loucura genial no papel: misturar combate tático de turnos, estrutura de roguelite e mecânicas de jogo de ritmo. É uma aposta inegavelmente ousada que, durante as primeiras horas, entrega uma experiência incrivelmente única e recompensadora. No entanto, à medida que a campanha avança e as horas se acumulam, o brilho dessa originalidade começa a ser ofuscado por problemas estruturais e uma repetição exaustiva.

A narrativa nos joga em um mundo de fantasia sombria consumido pela magia “riven”, uma feitiçaria caótica e fora do compasso. Em vez de focar em grandes arcos dramáticos, a história acompanha a sobrevivência de um grupo de guerreiros liderados por Yelder Pulsoforte, um baterista excêntrico cuja música dita o ritmo da batalha. A atmosfera foca menos em diálogos extensos e mais na sensação opressiva de atravessar biomas cada vez mais perigosos, estabelecendo um tom de constante urgência e instabilidade.

Wardrum
Créditos: Mopeful Games, Team 17

O verdadeiro coração do jogo bate no campo de batalha. O combate ocorre em uma grade onde o posicionamento é absolutamente vital. Antes de qualquer golpe, você organiza suas unidades, analisa o terreno e planeja a abordagem. A genialidade surge na execução: cada ataque, esquiva ou habilidade exige que você pressione sequências específicas de botões no tempo exato da música. Acertar o compasso garante golpes críticos e efeitos devastadores, enquanto errar a batida resulta em ações fracas que podem colocar todo o esquadrão em perigo. Essa união entre pensamento estratégico e reflexo musical cria uma dinâmica densa e imersiva que você não encontrará em nenhum outro jogo atual.

A estrutura roguelite traz camadas interessantes. A progressão ocorre tanto na exploração — escolhendo caminhos em um mapa ramificado cheio de combates, eventos aleatórios e tesouros — quanto no intervalo entre as mortes. No santuário principal você utiliza recursos para desbloquear novos membros, melhorar atributos passivos e forjar novas habilidades musicais personalizadas. É um sistema robusto que garante que nenhuma tentativa pareça uma perda de tempo total, oferecendo sempre um senso de evolução.

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Captura de Tela, Créditos: Mopeful Games, Team 17

O grande tropeço de Wardrum é sua incapacidade de sustentar as próprias ideias sem cansar o jogador. O que começa como um desafio musical viciante logo se transforma em rotina monótona. A trilha de percussão tem pouquíssima variação, tornando-se repetitiva e exaustiva após algumas sessões. Os combates se estendem muito além do necessário, lançando quantidades massivas de inimigos em batalhas que perdem a emoção e viram testes de resistência.

Os oponentes não precisam seguir as mesmas regras rítmicas que o jogador, o que frequentemente gera picos de dificuldade que soam injustos. A cegueira, por exemplo, oculta completamente a interface de ritmo, transformando um combate baseado em precisão em um jogo de adivinhação frustrante. O resultado é uma campanha de cerca de vinte horas que parece artificialmente esticada, diluindo as melhores qualidades do jogo em um mar de repetição.

No fim das contas, Wardrum é uma experiência de extremos. Quando as engrenagens musicais, o posicionamento no cenário e o pensamento tático se alinham com perfeição, ele oferece momentos de puro brilhantismo mecânico. Infelizmente, a fadiga causada pela falta de variedade musical, encontros prolongados e desbalanceamento testam a paciência de qualquer um. É um experimento incrivelmente corajoso e com ideias ótimas, mas que acaba desafinando um pouco antes da apresentação terminar.

wardrum review
70

BOM